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Um Plano Marshall digital para a Ucrânia

A Ucrânia deveria tornar-se um "Israel europeu", diz Mykhailo Fedorov, o ministro ucraniano para a digitalização. © Keystone / Alessandro Della Valle

A reconstrução da Ucrânia também deve passar pela digitalização das instituições estatais, segundo declaração do ministro da digitalização Mykhailo Fedorov na Conferência de Recuperação da Ucrânia, em Lugano.

Este conteúdo foi publicado em 06. julho 2022 - 17:40

A digitalização é uma das palavras da moda que entrou no vocabulário dos políticos modernos. A invasão russa na Ucrânia demonstrou como as ferramentas digitais – da guerra cibernética à tecnologia militar – podem ser usadas em caso de guerra.

Embora muita gente acreditasse que o governo ucraniano entraria em colapso logo após a invasão do exército russo, agora quatro meses depois do início da guerra, o governo ainda segue firme. “E continuaremos a digitalizar nossa administração, apesar dos combates.”

Essa foi a mensagem passada por Mykhailo Fedorov, Ministro da Transformação Digital da Ucrânia, ao falar na Conferência de Recuperação da Ucrânia sobre os desafios que seu ministério enfrenta. Fedorov, 31 anos, integrou a delegação enviada pela Ucrânia para Lugano –  fazendo parte do maior grupo a viajar para o exterior desde a invasão em fevereiro.

Ele transmitiu sua mensagem da mesma maneira que as autoridades ucranianas se comunicaram desde o início da guerra: de maneira moderna, otimista e conectada digitalmente. Sua apresentação poderia facilmente se passar como um Ted Talk e foi uma mostra de por que a Ucrânia está vencendo a batalha da propaganda, pelo menos no Ocidente.

O poder da mídia da Ucrânia

Esse sucesso se deve em grande parte a campeões de tecnologia como Fedorov: o ex-empresário de TI é amigo do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky há muitos anos. Pessoas como ele estão por trás do crescimento da indústria de tecnologia na Ucrânia nos últimos anos.

Fedorov também usa as mídias sociais com astúcia: através das redes sociais, ele pressionou as empresas de tecnologia ocidentais a se retirarem da Rússia – e alcançou algum sucesso: Apple, Google e Meta deixaram a Rússia. Foi Fedorov quem contatou Elon Musk via Twitter pedindo ajuda para proteger a conexão de internet da Ucrânia por meio de sua rede de satélites Starlink. Musk se mexeu: em algumas regiões do país, a conexão de internet agora está mais rápida do que antes da invasão.

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Fedorov é responsável pelo principal programa digital do governo ucraniano desde 2019: o aplicativo de governo Diia. A previsão é de que até 2024, todos os serviços governamentais sejam acessíveis via smartphone.

O ambicioso projeto teve de ser adaptado às exigências da guerra. Já a partir de 2014, os deslocados internos do Donbass e da Crimeia podem registrar suas propriedades nos territórios ocupados e registrar seus recém-nascidos como cidadãos das regiões.

Alguns dos países vizinhos da Ucrânia aceitaram recentemente as identidades digitais de refugiados que perderam seus documentos no tumulto da guerra e atravessando as fronteiras. A Ucrânia é o primeiro país a fazer pleno uso da identificação eletrônica.

O ministério de Fedorov também desempenha um papel importante na arrecadação de fundos.  Foi através da plataforma Link externoUnited24,Link externo por exemplo, que foi iniciada a captação de recursos para aquisição de suprimentos militares e médicos. O país precisava de dinheiro, pois as exportações caíram pela metade em março e abril em comparação com o mesmo período do ano passado, e os gastos com defesa e reconstrução de infraestrutura danificada aumentaram rapidamente.

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A mudança de prioridades imposta pela guerra forçou respostas rápidas: o aplicativo Diia agora transmite notícias, envia mensagens de alarme e permite que os cidadãos registrem danos em suas casas ou se inscrevam para ajuda financeira. Até o pagamento de benefícios é feito pelo aplicativo.

Além disso, os cidadãos podem usar um chatbot para fazer upload de imagens de movimentos de tropas russas, o que aparentemente é uma fonte de informação de alta qualidade para os militares ucranianos. Fedorov também falou com orgulho de um “exército de TI”, composto por voluntários, que ajudam a evitar ciberataques russos.

O 'país mais digital' do mundo

Em Lugano, Fedorov apresentou a iniciativa Digital4Freedom, que tem  como objetivo nada menos do que tornar a Ucrânia o “país mais digital” em três anos. O ministro falou de um plano Marshall digital que será necessário para restaurar a infraestrutura bombardeada em seu país e elevar a Ucrânia a um nível superior no mundo da tecnologia.

Nessa direção, um sinal de apoio oferecido na conferência em Lugano foi a assinatura de um memorando entre Fedorov e três empresas de telecomunicações no qual foi prometido o repasse de US $13 milhões para reconstrução digital. “Um primeiro voto de confiança, que é importante além de nossas fronteiras”, disse ele.

As empresas ocidentais também devem desempenhar um papel no impulso tecnológico da Ucrânia – e ajudar a alocar empregos para o país no futuro. O governo e as grandes empresas de tecnologia devem estar intimamente interligados no futuro. Queremos transformar a Ucrânia em uma Israel europeia", disse ele a jornalistas.

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O papel da Suíça

Talvez não seja coincidência que o pontapé inicial do Plano Marshall digital tenha ocorrido em Lugano. Como parte de sua cooperação com a Europa Oriental, a Suíça está envolvida com assuntos da Ucrânia desde muito tempo, tendo participado na construção da paz e nas reformas de descentralização. Mas também especificamente no campo da digitalização a Suíça aparece: vários projetos de governança eletrônica devem facilitar o acesso da população à informação e combater a corrupção, dois problemas de longa data na Ucrânia.

“Em certas áreas, estamos digitalmente à frente da Suíça”, disse Fedorov, por exemplo, na administração do governo. "Mas ainda há muito a aprender com os outros, como quando se trata de instrumentos financeiros digitais ou e-democracia". A visita foi uma boa oportunidade para o ministro fazer contatos nesse sentido.

Muitos dos 1.000 participantes da conferência eram do setor de negócios e tecnologia. Ao falar para esse público, o jovem ministro não economizou superlativos quando descreve o futuro digital de seu país. Afinal, ainda que seu país esteja no meio de uma custosa guerra de desgaste ele tem um plano – e confia que o desenvolvimento digital atravessará essa guerra.

Adaptação: Clarissa Levy
(Edição: Fernando Hirschy)

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