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Suíça participa da Copa Mundial de moradores de rua

A Suíça (de camisas verdes) no jogo contra os representantes da República Tcheca. swissinfo.ch

O Brasil é o país do futebol, mas o povo brasileiro viveu neste mês de setembro uma experiência inédita com seu esporte preferido.

Este conteúdo foi publicado em 29. setembro 2010 minutos
Maurício Thuswohl, Rio de Janeiro, swissinfo.ch

Sua capital turística, Rio de Janeiro, recebeu a 8° Copa mundial de moradores de rua. A Suíça também esteve por lá.

Reunidos em uma quadra montada sobre as areias de Copacabana, homens e mulheres representando 55 países participaram no Rio de Janeiro da oitava edição da "Homeless World Cup", evento que tem como objetivo, segundo seus organizadores, dar novas oportunidades de inserção social a quem precisa e "mudar para sempre a vida dos excluídos".

O conceito de exclusão é amplo, e isso se refletiu no perfil das equipes. Nos países mais pobres, por exemplo, a maioria dos jogadores é morador de área de risco ou desempregado. Entre os países mais ricos, por sua vez, muitos jogadores apresentam um histórico de problemas psicológicos ou de dependência química.

A equipe da Suíça reflete bem a realidade do país e é composta por um misto de pessoas sem-abrigo, ex-dependentes químicos e requerentes de asilo: "A equipe nacional tem oito jogadores. Na verdade, trouxemos sete ao Rio, pois um jogador, o Eduardo, encontrou um trabalho, foi chamado para fazer uma aprendizagem. Ele ficou um tanto chateado, pois queria muito vir ao Rio e tinha se preparado para isso. Mas, acabou ficando na Suíça, afinal ter arranjado esse emprego é uma coisa muito boa para ele", conta o chefe da delegação suíça, Olivier Joliat.

A história de Eduardo (em respeito a uma regra interna, a equipe suíça somente divulga os primeiros nomes de seus jogadores) mostra que participar dessa iniciativa traz vantagens que transcendem as quatro linhas. Outras histórias de vida marcantes compõem o rico cenário humano da equipe helvética: "Temos dois jogadores que são jovens de Zurique que não tem trabalho e quatro jogadores da Basiléia que tiveram problemas com álcool ou drogas. Temos um terceiro jogador de Zurique que é vendedor de jornais e estava sem abrigo. Temos dois jogadores não-suíços. Um veio do Quênia para a Suíça com dez anos e há um outro que veio da Macedônia", enumera Joliat.

Jogador mais velho (40 anos) e capitão da equipe, Steve lembra dos tempos quando atuava como zagueiro na segunda liga da Suíça, antes de se tornar alcoólatra. Agora, não esconde seu orgulho: "Não é fácil ser capitão, mas eu tento, nas situações difíceis, reunir a equipe e manter todos calmos e unidos. Preciso ser o exemplo para os jovens, pois sou um velho jogador com 40 anos", diz.

Steve, que nasceu na comuna de Laufen, na Basileia, afirma que voltar a jogar futebol depois de passar por um período sombrio "foi uma grata surpresa" que a vida lhe reservou: "Eu era alcoólatra e conheci uma instituição em Frankendorf onde larguei o álcool. Eles têm também uma equipe de futebol que faz parte da liga suíça. Eu jogo desde 2008 e nunca faltei a nenhum torneio", conta.

"Vai, Benaglio!"

Outra figura carismática da equipe da Suíça é o goleiro Christian, também filho do cantão da Basiléia: "Para mim, estar na equipe nacional é uma honra e poder representar a Suíça em um lugar maravilhoso como o Rio é motivo de muita alegria", diz. Em campo, o goleiro não esconde seu prazer e dá um largo sorriso quando um torcedor brasileiro grita após uma boa defesa: "Vai, Benaglio!", em referência ao goleiro suíço que disputou a Copa do Mundo da África do Sul.

Christian conta que desde criança jogava futebol, mas, com a chegada dos sintomas da depressão, sua vida acabou enveredando por outros caminhos: "Depois que minha mãe morreu, eu passei a morar em habitações sociais porque não conseguia viver só", conta, olhar perdido, para logo em seguida retomar o sorriso: "Poder jogar futebol e fazer parte da equipe suíça mudou muito minha vida. Eu encontrei um apartamento só pra mim e começo a me abrir um pouco, eu diria muito, ao mundo. O futebol me dá forças e muita vontade de viver", revela.

Liga suíça

O técnico da seleção suíça, David Möller, convocou para a "Homeless World Cup" realizada no Rio jogadores de quatro equipes. Presente em todas as edições do torneio, a Suíça é um dos poucos países que já tem um campeonato interno de futebol social (nome dado pelo público carioca): "A maioria dos países aqui presentes mantém somente uma equipe nacional, mas na Suíça nós temos uma liga com 18 equipes montadas por diferentes organizações sociais. Nós temos quatro torneios a cada ano e assim podemos observar bastante os jogadores de todas as equipes", diz Olivier Joliat.

O chefe da delegação suíça explica como se dá a convocação dos jogadores: "De um lado, o critério para a escolha dos jogadores tem a ver evidentemente com a capacidade de jogar futebol. Mas, se tornar um jogador da equipe nacional suíça significa também ganhar responsabilidade em sua vida e ter a oportunidade de mostrar que você quer realmente mudar as coisas", diz.

Membro da organização Strassenmagazin Surprise, Joliat conta que a dinâmica de disputa na Suíça é fundamental, uma vez que os times levados a "Homeless World Cup" jamais se repetem: "Só se pode ir uma única vez ao campeonato do mundo. Assim sendo, é preciso montar sempre novas equipes. Para nós é muito difícil montar novas equipes porque somente podemos ter dois jogadores sem nacionalidade suíça. Existem muitos jogadores que nasceram na Suíça, mas não tem papel", diz.

Joliat reconhece que o futebol social está ainda muito restrito à Suíça alemã: "Sabemos que existem dependentes químicos, desempregados e refugiados em todo o país. Tentamos várias vezes encontrar equipes da Suíça romande para integrar nossa liga e diminuir o predomínio da suíça alemã. Fizemos também campos de treino no Tessino, mas não é fácil encontrar equipes", lamenta.

Objetivo cumprido

De acordo com os organizadores da “Homeless World Cup”, os objetivos sociais do evento vêm sendo atingidos desde sua primeira edição, realizada em 2003: “Setenta e sete por cento dos jogadores conseguem ter um teto, abandonam as drogas e o álcool, voltam a estudar, conseguem empregos ou novas qualificações e reconstroem sua relação com a família e os amigos”, diz o documento promocional do evento.

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Brasil campeão

O Brasil foi o grande vencedor da oitava edição da “Homeless World Cup”, tendo conquistado o primeiro lugar nos torneios masculino e feminino. Na final entre os homens, o Brasil venceu o Chile por 6 a 0. Entre as mulheres o jogo final foi mais difícil, mas o Brasil acabou derrotando o México por 7 a 4: “Ter participado da copa e ganhado esse título vai ser muito bom para o futuro delas”, comemorou Alexandre Mathias, que é técnico da equipe brasileira feminina.

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Próxima parada

A nona edição da “Homeless World Cup” acontecerá entre os dias 19 e 29 de agosto de 2011, na França, provavelmente na cidade de Paris. As edições anteriores aconteceram na Áustria (2003), Suécia (2004), Escócia (2005), África do Sul (2006), Dinamarca (2007), Austrália (2008) e Itália (2009).

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