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Suíça já plantou mais de 1 milhão de árvores no Brasil

Anita Studer plantou a milionésima árvore em junho de 2002. Divulgação Anita Studer

Anita Studer foi ao Brasil para estudar o Anumará e fazer uma tese em ornitologia. Encontrou um pássaro ameaçado de extinção em Alagoas, num pedaço de Mata Atlântica também em extinção.

Este conteúdo foi publicado em 09. abril 2004 - 10:08

23 anos depois, a Associação Nordesta já plantou mais de um milhão de árvores na região, que agora está cheia de Anumarás.

Anita Studer, 60 anos, fala português com sotaque nordestino, aprendido entre Alagoas e Pernambuco. Ela é dessas raras pessoas que fazem tudo para tornar a vida interessante.

- "Eu prefiro ser um ator positivo do que espectadora do desespero", afirma Studer, "é melhor tentar fazer alguma coisa do que ficar chorando no meu canto."

E foi assim desde criança, como ela conta durante a entrevista dada à swissinfo. Ela se lembra que, quando pôs os pés no Brasil pela primeira vez em 1975, teve a impressão que havia nascido por lá.

Até 1979, ela fez várias viagens e levou amigos para conhecer o Brasil. Mas a vida de Anita Studer ficou definitivamente ligada ao país - "um mistério do meu destino". Em 1980 a suíça descobriu o Anumará que, em tupi-guarani, significa um pássaro preto que canta no brejo, de manhã.

Depois de mais de 23 anos de trabalho entre Alagoas e Pernambuco, Anita e a Associação Nordesta, em Genebra, começam uma campanha para coletar um milhão de francos suíços para um projeto no Maranhão graças a um outro pássaro: o Gavião Real (Harpia harpyja), a mais possante águia do mundo.

De quando vem esse interesse pelos pássaros?

Anita Studer: Quando era criança morávamos em Brienz, uma cidadezinha no Cantão de Berna que, naquela época, era como o interior do nordeste, não tinha nada muito interessante para fazer, não tinha lazer. Então, quando chegava a primavera, eu ficava observando e ouvindo os pássaros. Nossa casa era no fim do vilarejo, perto da floresta.

Swissinfo: Daí para estudar ornitologia foi fácil?

AS: Foi a última coisa que estudei. Éramos uma família de 15 irmãos e lá não havia muita perspectiva. Meus três irmãos mais velhos vieram para Genebra e depois veio toda a família.

Eu fiz a escola profissionalizante e me formei secretária. Trabalhei um ano e não gostei. Aí fiz três anos de colégio noturno e entrei na Faculdade de Direito.

Para me sustentar, fui motorista de táxi, garçonete e até detetive particular. Me formei advogada aos 29 anos mas achei que também não tinha sentido. Depois é que eu fui estudar ornitologia.

Swissinfo: E por que não estudar os pássaros aqui na Suíça?

AS: Há poucas espécies, umas 50 sedentárias, e todas já muito pesquisadas. Tenho um amigo que estudou a homossexualidade do pardal! Aí, nas minhas viagens ao Brasil, fiquei deslumbrada com a natureza e passei a fotografar e a gravar cantos de pássaros e achei que poderia ajudar a divulgar.

Swissinfo: E é aí que surge o Anumará?

AS: Tinha que fazer uma tese de mestrado e meu orientador me falou de um pássaro raro, cunhas penas existiam nos arquivos. Na etiqueta estava escrito onde o pássaro fora capturado, que era o método de estudo no século XIX.

Segui a pista e, numa tarde quente, em dezembro de 1980, um menino me mostrou um ninho de Anumará. Foi na fazenda Riachão, município de Quebrangulo, em Alagoas.

Lá estava o assunto para a tese...

Aí meu professor me disse que eu devia fazer logo a tese, que o anumará ia desaparecer porque dentro de pouco tempo não haveria mais mata. Vi que o anumará era um pássaro de asa curta, quer dizer, sedentário. Pensei naquilo e depois disse a ele que eu não podia fazer isso, que eu ia primeiro tentar salvar a floresta e depois teria a vida inteira para estudar o anumará. Todos achavam que eu estava louca, que era impossível.

E realmente não foi fácil?

AS: Não, e eu não sabia que ia levar tanto tempo! Comecei então a estudar e constatei que a mata de Pedra Talhada era parte da Mata Atlântica, da qual restava apenas 5% em todo o Brasil e 1% no Nordeste. Pouco a pouco comecei a conversar com as pessoas porque o diálogo é minha maneira de trabalhar. Descobri que naquela mata nasciam 82 riachos que abastecem a região de água potável. Percebi também que, sem uma alternativa para as pessoas ganharem a vida, a floresta acabaria mesmo. Não dá para falar de ecologia com quem tem fome!

E qual foi o primeiro projeto?

AS: Foi a reconstrução de uma escola que não funcionava em troca do compromisso de um fazendeiro e prefeito de não cortar mais o mato na fazenda dele. Ele (Frederico Maia) foi meu primeiro aliado e falou com outros prefeitos.

Voltei para a Suíça, criamos a Fundação Nordesta (com um grupo de amigos) e começamos a arrumar dinheiro para construir a escola. Depois vieram os cursos de corte e costura, as sementeiras para replantar a mata, marcenaria, cerâmica, um posto médico e outros.

O próximo projeto é o de apicultura, com abelhas nativas. 20 famílias já vivem da apicultura. Em breve serão 200 famílias.

Hoje, Pedra Talhada é uma reserva federal?

AS: É, agora está nas mãos do Ibama. Mas até chegar aí foi um trabalho danado. Falei não sei mais com quantos políticos, governadores, deputados, senadores.

Em agosto de 1985, foi criado o Parque Estadual de Pedra Talhada e, em 1989, um decreto presidencial criou a Reserva Biológica Federal de Pedra Talhada (4.500 hectares), entre Alagoas e Pernambuco. Mas aí começou o problema das indenizações aos proprietários. Nesse período recebi várias ameaças de morte.

As indenizações tem de ser votadas no Congresso. O Ibama já indenizou os maiores proprietários mas ainda faltam umas 40 famílias, entre posseiros e pequenos proprietários. Agora não tem mais desmatamento nem caça e os rios também estão protegidos.

Seu trabalho lá está quase acabado?

AS: O objetivo é que os projetos sejam auto-sustentados. Mas eu não vou nunca abandoná-los. Em Quebrangulo, tem umas 20 famílias que são meus irmãos, meus amigos. Eu aprendi tudo com eles.

Hoje as pessoas estão mais conscientes?

AS: Melhorou bastante, principalmente graças às campanhas nas escolas, mas não como devia ser. Em Quebrangulo, ainda tem gente que pensa que o Brasil inteiro é coberto de mata e, portanto, pode cortar!

E o projeto no Maranhão?

AS: Parece que vai começar tudo de novo e outra vez pour causa de uma ave: o Gavião Real (Harpia harpyja), a mais possante das águias. Ela existia da América Central até o Centro-Sul do Brasil mas agora está restrita à Amazônia. Eu estava viajando e fotografando por lá e encontrei o Gavião Real nas nascentes do Rio Parnaíba. Depois, conheci o juiz Marlon Reis, iniciador do Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba, localizado na divisa de 4 estados (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia). Ele também atua na área social através de um centro para meninos carentes.

E onde é que entra a Fundação Nordesta?

AS: O interessante é que, com apoio do procurador geral do Maranhão, Raimundo Nonato de Carvalho Filho, os procuradores dos 18 distritos ao longo do rio Parnaíba formaram o Comitê da bacia hidrográfica no projeto Velho Monge, o nome poético do rio. Como é um parque nacional, estão proibidas as queimadas e o desmatamento mas é difícil fiscalizar. Uma missão científica já avaliou a situação e nós vamos entrar com a parte positiva do projeto. Vamos colocar energia solar em 18 centros comunitários onde as pessoas discutirão a necessidade da preservação; vamos implementar coleta seletiva de lixo e reflorestamento em 18 municípios; apicultura em 5 municípios e ajudar os pequenos agricultores.

Isso é projeto para mais quantos anos?

AS: Acho que vai ser muito mais rápido por contar com uma estrutura de apoio da Justiça e do Ministério Público, algo que nós não tínhamos em Quebrangulo, onde começamos do nada. O objetivo inicial agora é acabar com as queimadas ao longo do Parnaíba. Para isso, precisamos inicialmente de 1 milhão de francos suíços (+ de 2 milhões de reais) e estamos em contato com todas as fontes possíveis de subvenções na Suíça. O importante é fazer, nem que seja um pequeno grão de areia na praia de Copacabana.

Entrevista swissinfo: Claudinê Gonçalves

Breves

- A milionésima árvore ao redor da Reserva Biológica Federal de Pedra Talhada foi plantada dia 1° de junho de 2002.

- A Reserva tem 4.500 hectares (entre Alagoas e Pernambuco) e está sob o controle do Ibama, que tem dois postos na região.

- Os maiores proprietários já foram indenizados mas ainda faltam 40 famílias, entre posseiros e pequenos proprietarios.

- Em 2002, a Câmara de Quebrangulo (AL), atribuiu a Anita Studer o título de cidadã honorária quebrangulense.

- No dia internacional da mulher (8 de março de 2004) Anita Studer recebeu do governador alagoano a Comenda Nise Magalhães Silveira, pela "luta em defesa da cidadania".

- A Fundação Nordesta aderiu recentemente ao projeto de preservação e recuperação do rio Parnaíba, no Maranhão.

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