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Será que algum dia saberemos a verdade sobre a origem do coronavírus?

A distância genética entre o coronavírus do morcego e o coronavírus humano sugere que o vírus chegou aos humanos através de um "hospedeiro intermediário", como um pangolim ou uma marta. Copyright 2021 The Associated Press. All Rights Reserved.

Entre omissões e conflitos, chegar à verdade sobre o vírus que está por trás da pior pandemia do século XXI pode ser quase impossível. Na Suíça, os virologistas tendem a concordar na teoria da transmissão de animais para humanos (spillover, ‘salto de espécie’), mas há quem ache que a hipótese de um acidente de laboratório em Wuhan deveria ser levada mais a sério.

Este conteúdo foi publicado em 25. outubro 2021 - 15:00

Em um editorial publicado recentemente na revista científica Nature, os cientistas que investigaram o surto da pandemia para a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertam que a intervalo de tempo para investigar o assunto está acabando.

“Parece que neste momento é mais importante encontrar um culpado do que descobrir a verdade”, diz Isabella Eckerle, virologista e diretora do Centro de Doenças Virais Emergentes do Hospital Universitário de Genebra.

Outro renomado virologista suíço, Didier Trono, da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), também acredita que a questão se tornou mais política do que científica. Trono é pessimista quanto à possibilidade de se descobrir o que realmente aconteceu, apesar da importância que isso teria para a prevenção e gestão de futuras pandemias.

“Precisamos estar preparados para não ter uma resposta definitiva por causa das dificuldades científicas e das implicações políticas, mas nesta fase a probabilidade de uma transmissão de animal para humano permanece alta”, diz ele.

Verdades escondidas

A busca pelas origens da Covid-19 está repleta de complexidade e controvérsia. A China nunca se mostrou totalmente cooperativa e transparente, e até agora sempre negou o acesso a dados e amostras completas, como declarou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em uma rara crítica pública à China. Segundo Tedros, essa falta de transparência prejudicou a OMS, que enviou uma equipe de cientistas independentes a Wuhan, na China, para conduzir investigações aprofundadas entre janeiro e fevereiro deste ano. Mas o grupo teve de passar os primeiros 14 dias em quarentena, interagindo com seus colegas chineses apenas via videoconferência, disse a OMS em seu relatório. Isso deixou apenas mais duas semanas para o trabalho de campo, que deveria ser todo pré-planejado a fim de garantir o distanciamento e o monitoramento das condições de saúde.

No final, apesar da difícil colaboração com o governo chinês, a OMS descartou a hipótese do acidente de laboratório em seu estudo global sobre as origens do Sars-CoV-2. Baseando-se em dados incompletos, o órgão mundial de saúde qualificou a hipótese como “extremamente improvável”. 

Tedros reconheceu mais tarde que a teoria do acidente de laboratório havia sido descartada prematuramente, e Peter Ben Embarek, o cientista dinamarquês que liderou a investigação da OMS na China, admitiu recentemente que os oficiais chineses pressionaram sua equipe para abandonar a hipótese.      

Na esteira de tais revelações e tendo em conta a incompletude dos dados do estudo, alguns Estados-membros da OMS – incluindo os EUA, o Reino Unido, o Canadá e a Austrália – criticaram duramente o órgão de saúde sediado em Genebra por sua negligência. A China também foi alvo de críticas por sua falta de cooperação e omissão de dados. Em maio, 17 membros da comunidade científica internacional também se pronunciaram – entre eles Richard Neher, professor e especialista em evolução de vírus na Universidade da Basileia. Em uma carta publicada na Science Magazine, o grupo pediu que a investigação continuasse de forma mais objetiva e transparente.

Os signatários do texto argumentaram que “as duas teorias [a do ‘salto de espécie’ e a do acidente de laboratório] não foram consideradas de forma equilibrada”, embora nenhuma delas tenha sido respaldada por resultados concretos. “Temos que levar ambas as hipóteses a sério até que tenhamos dados suficientes”, diz Neher à SWI swissinfo.ch.

Uma questão de probabilidade

O estudo global da OMS identificou quatro possíveis vias de transmissão do vírus desde o suposto animal de origem (morcego-ferradura) até nós: propagação zoonótica direta (de morcegos diretamente para humanos, considerada provável), transmissão através de um hospedeiro intermediário (de morcegos para outro animal e depois para humanos, considerada muito provável), introdução através de alimentos congelados ou refrigerados (considerada possível) ou um acidente de laboratório (considerado extremamente improvável).

A hipótese de hospedeiro intermediário é considerada muito provável porque, embora se conheça um coronavírus de morcego que é geneticamente próximo do Sars-Cov-2, os dois vírus são separados cronologicamente por várias décadas. Isso sugere “um elo perdido”, ou seja, um animal pertencente a outra espécie que agiu como uma “ponte” entre humanos e morcegos, diz o relatório da OMS. Animais como o pangolim, a marta e a civeta foram considerados como possíveis intermediários, uma vez que são suscetíveis aos coronavírus, mas ainda não foi identificado definitivamente qual teria sido o hospedeiro.

“Pode ser que ele nunca seja [identificado]”, argumenta Eckerle, acrescentando que rastrear a origem de um vírus é um grande desafio e exige muito tempo. “A investigação pode levar anos, como foi no caso do Sars-CoV-1, e a população animal hospedeira pode já estar extinta”, diz o virologista.

No caso da epidemia de SARS entre 2002 e 2004, os pesquisadores levaram cerca de quatro meses para identificar as civetas como o hospedeiro intermediário, mas mais de dez anos para encontrar, numa caverna remota, uma única população de morcegos-ferradura que tivesse todos os componentes genéticos do vírus. Eckerle não se surpreende que o relatório da OMS não tenha fornecido resultados mais conclusivos sobre a origem do Sars-CoV-2, dada a complexidade da investigação. 

O que se sabe, contudo, é que muitos dos vírus que circulam atualmente são resultado de zoonoses, doenças que são transmitidas de animais para seres humanos e vice-versa. É um fenômeno que tende a aumentar devido à interferência humana nos habitats animais, como o desmatamento e a criação intensiva. Acidentes de laboratório, por sua vez, são raros, diz Eckerle. Em seus dez anos de carreira, ela diz nunca ter tido ou testemunhado um acidente durante um experimento.    

“É muito mais fácil procurar um bode expiatório para não precisarmos admitir que nosso estilo de vida pode ter contribuído em grande parte para essa pandemia”, diz ela. 

Science.org

Neher, o autor da carta na Science, reconhece que é mais provável que epidemias sejam geradas por zoonoses, mas ressalta que acidentes de laboratório já aconteceram antes.

“Dada a coincidência de haver um laboratório que estuda coronavírus em Wuhan, essa possibilidade não deve ser descartada”, argumenta o especialista, citando a ausência de provas que mostrem o contrário. O Instituto de Virologia de Wuhan (WIV) é um dos vários locais em todo o mundo que conduzem pesquisas altamente sensíveis sobre os coronavírus e que mantêm um banco de dados de amostras e sequências de vírus.    

De acordo com um relatório da inteligência estadunidense, três pesquisadores do instituto procuraram atendimento hospitalar em novembro de 2019, após adoecerem com uma doença semelhante à gripe. Essa teoria sugere que os funcionários foram infectados com o vírus devido a equipamentos de proteção defeituosos ou medidas de segurança inadequadas, difundindo-o posteriormente em Wuhan. Mas o WIV não divulgou nenhum registro médico que confirmasse ou negasse que seus funcionários contraíram o vírus.

Para Neher, essa hipótese poderia ser descartada se o hospedeiro intermediário fosse encontrado. Mas ele destaca que, apesar da busca intensiva pelo vírus em animais de criação e na natureza, “até agora, nenhum vírus diretamente relacionado [com o coronavírus humano] foi encontrado”.

Conflitos de interesse e genomas suspeitos

Diversos elementos da investigação da OMS em Wuhan e da própria natureza da Covid-19 levantaram novos questionamentos sobre um possível vazamento de laboratório. O primeiro envolve a presença de Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance de Nova York, no grupo de cientistas “independentes e livres de conflitos de interesse” selecionados pela OMS para a investigação em Wuhan.

A EcoHealth Alliance financiou as pesquisas sobre coronavírus conduzidas por Shi Zheng-li, uma das principais cientistas do WIV, apelidada pela mídia de “Bat Woman” por causa de seu trabalho com coronavírus de morcegos. Daszak também havia assinado uma carta publicada no Lancet, logo no início da pandemia, condenando a hipótese do acidente de laboratório e pressionando seus colegas cientistas a fazerem o mesmo.

Além disso, Pascal Meylan, infectologista e professor honorário da Universidade de Lausanne, considera “um pouco suspeita” uma determinada característica do coronavírus, que está relacionada à teoria de que o vírus pode ter sido manipulado antes de seu vazamento acidental.

Meylan explica que o Sars-CoV-2 não apenas apresenta um local de clivagem na proteína spike para furina, uma enzima que corta proteínas, presente na superfície das células humanas, mas também codifica dois aminoácidos de arginina usando o códon dos nucleotídeos CGG (que é a linguagem do ácido nucleico que especifica os aminoácidos). Esse códon, na verdade, é favorecido pelas células humanas, mas raramente é encontrado em coronavírus selvagens em morcegos.

Ambas as características podem sugerir que o vírus foi manipulado em laboratório, utilizando células humanas e de ratos humanizados. Enquanto muitos especialistas em coronavírus refutam essa teoria, dizendo que vários membros dos coronavírus relacionados ao SARS possuem locais de clivagem para furina, outros a consideram uma evidência contundente.

“Não é uma prova, mas é um pouco suspeito que existam esses dois códons de arginina tipicamente humanos no meio dos códons típicos do coronavírus", disse Pascal Meylan à SWI swissinfo.ch.

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Adaptação: Clarice Dominguez

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