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Só investimento não pode transformar um país como o Níger numa Suíça

A Fundação Swisscontact está ativa na região do Sahel, em particular no Níger, Chade, Mali e Burkina Faso. Afp Or Licensors

A ajuda ao desenvolvimento pode envolver a Nestlé, o livre comércio e a reflexão sobre como agregar valor, de acordo com Philippe Schneuwly. Enquanto outras organizações de ajuda podem optar por falar sobre fontes de água e secas, o novo CEO da ONG Swisscontact discute capital, mercados e investimentos. Veja a entrevista.

Este conteúdo foi publicado em 16. janeiro 2022 - 10:00

Na Suíça, muitas instituições de caridade se opõem publicamente às parcerias com o setor privado e são, em geral, bastante críticas em relação ao mundo dos negócios. A SwisscontactLink externo é um tipo diferente de ONG – uma fundação próxima ao meio empresarial, que se envolve exatamente neste tipo de projeto.

Philippe Schneuwly é o CEO da Swisscontact desde 1º de junho. Schneuwly, doutor em economia, trabalha para a fundação desde 2009, inclusive como Diretor Regional para a América Central e na divisão Partners & Clients. / Daniel Buser

SWI swissinfo.ch: O que lhe incomoda no atual debate sobre a cooperação para o desenvolvimento?

Philippe Schneuwly: Recentemente, tem havido muito debate acerca da necessidade da cooperação para o desenvolvimento, uma vez que é possível apoiar as empresas locais com “investimentos de impacto” (impact investing). Assim, o investimento numa empresa é feito não apenas para obter lucro, mas também porque a empresa tem um impacto positivo no Sul Global – por exemplo, ela cria empregos ou resolve problemas ambientais.

Esse é um grande debate, porque há muito dinheiro disponível para investimentos sustentáveis. Os fundos privados são até 100 vezes maiores que os de ajuda pública ao desenvolvimento. Surge, então, a questão de se a ajuda ao desenvolvimento ainda é necessária ou se esse dinheiro não seria melhor canalizado no investimento em iniciativas locais que possam gerar transformação e desenvolvimento econômico.

Algumas pessoas têm a sensação de que o investimento poderia realmente transformar um país como o Níger numa espécie de Suíça. Mas a realidade é outra. Não se investe no Níger porque não há condições estruturais.

É muito arriscado?

Sim, muito! Mas a tentação é grande, dadas as quantias em jogo. Infelizmente, ainda não se compreendeu que a cooperação para o desenvolvimento existe para preencher uma lacuna enquanto os investidores não podem entrar em cena. A ideia de que as empresas vão construir “Vales do Silício” nos países em desenvolvimento é absurda. Não vai acontecer.

A Fundação Swisscontact

Referência mundial na implementação de projetos de desenvolvimento internacional, a Fundação Swisscontact é uma organização beneficente e independente, fundada em 1959 por empresários e acadêmicos suíços.

A fundação tem um orçamento anual de cerca de CHF 100 milhões (US$ 109 milhões). Ao contrário de outras organizações de ajuda, ela não faz nenhuma captação de recursos públicos, sendo financiada através de seus próprios projetos.

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A Swisscontact apoia o empreendedorismo. Faz mais sentido investir em negócios locais do que fazer caridade?

A verdadeira questão é se os empresários podem ser tão bem-sucedidos num país como o Níger quanto na Suíça. A resposta é não – eles enfrentam obstáculos que não existem na Suíça.

Esses obstáculos estão em diferentes patamares: acesso ao capital, ao conhecimento, às conexões e aos mercados internacionais. A tarefa é derrubar todos esses obstáculos. Nós não fazemos caridade – em vez disso, tentamos influenciar o sistema para criar oportunidades e capacitar a população local.

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Essa abordagem parece apropriada para mercados emergentes e países em desenvolvimento politicamente estáveis. Mas e os países onde a lei está mudando constantemente por causa das mudanças de regime, ou que são frágeis por causa da guerra? A Swisscontact deliberadamente não atua nesses países, correto?

Não, isso não é verdade. Somos muito ativos nesses países – na região do Sahel, por exemplo, atuamos no Níger, Chade, Mali, Burquina Fasso e em muitos países em outros continentes, onde o contexto é desafiador.

Quanto à ajuda nesses países, temos que ser mais modestos. Ela se assemelha mais à ajuda humanitária. A ajuda humanitária é, por definição, uma caridade que garante a sobrevivência das pessoas.

Se temos um projeto no Níger, não podemos construir empresas que poderiam possibilitar que as pessoas alcançassem um padrão de vida como o da Suíça – não há condições para isso. Então, temos que fazer concessões. Mas isso não significa abandonar o princípio de “ajudar os outros a ajudarem a si mesmos”.

Muitas ONGs ativas na cooperação para o desenvolvimento são especialmente críticas em relação ao livre comércio. Do ponto de vista das pequenas empresas no Sul Global, o livre comércio é uma vantagem ou desvantagem?

Depende do acordo comercial. Para os produtores indonésios de óleo de palma, o acordo de livre comércio com a Suíça é vantajoso – eles agora podem exportar em melhores condições. Para outros setores, contudo, existe o perigo de que as importações baratas concorram com seus próprios produtos.

Mercado atrativo: Muitos alimentos e produtos de cuidado contêm óleo de palma. © Keystone / Christian Beutler

Por exemplo, se a Europa fornecer enormes subsídios a suas indústrias pesqueiras ou agrícolas, e depois liberalizar a circulação desses produtos para ambos os lados com acordos de livre comércio, então algumas empresas nos países mais pobres não serão mais competitivas, porque não recebem subsídios ou são menos produtivas do que suas concorrentes europeias.

Uma questão importante é a velocidade com que essa liberalização acontece. Se ela ocorre muito rapidamente, então as empresas são privadas da chance de se adaptar. Acredito – e esta é minha opinião pessoal agora – que um acordo de livre comércio deve levar em consideração os diferentes estágios de desenvolvimento dos países envolvidos. Dessa forma, são oferecidas novas oportunidades a ambos os lados. Caso contrário, ele pode levar a uma vantagem desproporcional para um país em relação ao outro.

Além disso, se a Europa celebrar cada vez mais acordos comerciais com países do Sul Global, a vantagem de preço para os produtores locais fica cada vez menor. Surge então a questão: quem se beneficia? São apenas os consumidores na Europa, ou o produtor também ganha?

A teoria econômica nos ensina que a concorrência leva a reduções de preços, de modo que os consumidores são beneficiados. Assim, para que os acordos de livre comércio se tornem um instrumento de desenvolvimento, eles precisam ser utilizados estrategicamente e favorecer a exportação de produtos e serviços que ofereçam perspectivas de desenvolvimento ao país de produção. No caso do acordo de livre comércio entre a Suíça e a Indonésia, por exemplo, isso poderia ser alcançado favorecendo o óleo de palma produzido de forma sustentável em relação ao produzido de forma convencional. É importante incluir a cooperação para o desenvolvimento nas negociações de acordos com os países em desenvolvimento.

A Swisscontact fez a conexão entre os produtores de leite no Marrocos e a Nestlé. Como você negocia cooperações que trazem benefícios para o desenvolvimento de um país?

Introduzindo os pequenos produtores em uma cadeia de valor agregado. É preciso focar nos setores nos quais as exportações dão aos produtores locais uma chance de vender a preços mais altos ou em maiores quantidades. É preciso ajudá-los nas entregas de seus produtos a um exportador ou diretamente a um importador no exterior.

Então grandes empresas como a Nestlé não trabalhariam com pequenos produtores locais sem a ajuda da Swisscontact?

Talvez uma empresa como a Nestlé só comprasse de grandes agricultores porque os pequenos proprietários apresentam um risco muito grande em termos de qualidade e pontualidade das entregas. Ou talvez comprassem de pequenos agricultores, mas pagassem preços baixos. No momento em que os pequenos proprietários podem oferecer uma boa qualidade e garantias, eles podem pedir preços mais altos. Se os pequenos proprietários trabalharem juntos, eles com certeza podem ganhar poder de mercado.

O que você responde às críticas de que, em tais parcerias público-privadas, grande parte do dinheiro vai para grandes empresas que não precisam do apoio?

Se a população local também está lucrando, isso é um problema? Se é uma situação em que ambos os lados ganham, então eu acho que não há problema, desde que não haja subsídios para coisas que o setor privado faria de qualquer maneira.

Tomemos como exemplo o setor do cacau. Na Indonésia, implementamos alguns grandes projetos que foram cofinanciados por grandes empresas como Nestlé, Mondelez, Mars e Barry Callebaut. É uma questão de negociar a parte financiada pelo setor público e a parte financiada pelo setor privado. Como não sabemos o que vai acontecer com o projeto, pode ser que o setor público gaste demais – mas também pode ser que as empresas gastem mais. Acima de tudo, a questão deve ser: qual é o benefício para aqueles a quem o projeto se destina?

Adaptação: Clarice Dominguez

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