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Reportagem revela o uso de armas suíças em zonas de guerra

Imagem tirada do programa "Temps Présent", do canal RTS. Temps Présent, RTS

Todos os anos, a Suíça exporta centenas de milhões de francos suíços em equipamentos militares para todo o mundo. Embora a lei proíba o fornecimento de armas a países em guerra, os armamentos suíços são utilizados em conflitos, como demonstrou uma nova investigação feita por vários meios de comunicação.

Este conteúdo foi publicado em 28. fevereiro 2022 - 15:00
ptur com RTS

Para evitar que armas fabricadas na Suíça sejam utilizadas em violações dos direitos humanos, as exportações de material de guerra estão sujeitas a diversas restriçõesLink externo. A lei suíça proíbe a venda de armas a países em conflito, e os países de destino devem se comprometer a não reexportar as armas.

No entanto, uma nova investigação jornalística conjunta revela a presença ilegal de equipamentos militares suíços em operações no Afeganistão e no Iêmen, bem como seu uso contra civis. Acompanhados pela ONG holandesa Lighthouse ReportsLink externo, cerca de dez jornalistas da Sociedade Suíça de Radiodifusão e TelevisãoLink externo (matriz da SWI swissinfo.ch) e do jornal NZZ am Sonntag decifraram centenas de vídeos e fotos disponíveis na internet. Depois, estas análises foram corroboradas em campo.

Um avião civil Pilatus envolvido em bombardeios

Uma parte da investigação revela o uso de um avião suíço Pilatus, um PC-12, como veículo de reconhecimento para ataques no Afeganistão. A Rádio e Televisão Suíça (RTS) foca particularmente na “importância estratégica” que a aeronave teve num bombardeio mortal em julho de 2021. Os jornalistas da revista Temps Présent, da RTS, conversaram com testemunhas que afirmam que o ataque causou vítimas entre os talibãs, mas também entre a população civil.

De acordo com a equipe de investigação, a aeronave faz parte de um lote de 18 aviões exportados da Suíça para os Estados Unidos, de onde foram para o Afeganistão a fim de serem entregues às forças armadas afegãs. A proposta das aeronaves Pilatus é de ser um avião civil, e elas são exportadas como tal. “O PC-12 não é considerado um equipamento militar, nem mesmo um equipamento ‘dual-use’ (de dupla utilização, civil e militar). A venda, portanto, escapou de todo o controle sobre a exportação de materiais de guerra”, explica a RTS.

As aeronaves entregues aos EUA foram submetidas a modificações antes de serem enviadas para o Afeganistão. Segundo a RTS, “foi acrescentada uma porta pressurizada dupla, bem como antenas, câmeras e outros equipamentos de vigilância”. A própria Pilatus elogia a versatilidade do modelo, que “pode ser transformado em poucos minutos para muitas missões especiais”.

Quando o Talibã tomou o poder, em agosto de 2021, também houve indícios de que vários aviões Pilatus pertencentes aos exércitos americano e afegão haviam caído em suas mãos. A RTS conseguiu obter imagens que provam que os talibãs estavam em posse de pelo menos duas dessas aeronaves. Nem o governo suíço nem a empresa quiseram comentar o caso.

Fuzis de assalto suíços no Iêmen

Outra parte desta vasta investigação confirma a utilização de armas suíças pela Arábia Saudita contra os rebeldes houthis, no Iêmen. Os jornalistas baseiam suas afirmações em imagens de uma operação das forças navais sauditas, na qual pelo menos três dos soldados filmados estavam carregando um Sig Sauer 551. Esses fuzis de assalto, fabricados no cantão de Schaffhausen, “têm algumas características muito distintas”, explica a RTS.

Os fuzis destes soldados sauditas no Iêmen têm as características distintivas da Sig Sauer 551, de acordo com a RTS. rtsinfo

A equipe de jornalistas também conseguiu identificar que as filmagens foram feitas no arquipélago das Ilhas Hanish, um território iemenita considerado estratégico.

“Há provas nítidas (...) da utilização de armas suíças numa operação no Iêmen que tem um impacto na vida de civis”, disse Leone Hadavi, da Lighthouse Reports, segundo a RTS. O país está dividido em dois há mais de seis anos: de um lado, o grupo Houthi, apoiado pelo Irã; do outro, as forças legalistas apoiadas pela Arábia Saudita. Um bloqueio marítimo e aéreo impede que milhões de civis tenham acesso à maioria dos bens de consumo.

Já em 2018, o jornal BlickLink externo havia alertado sobre o uso de armas suíças nesta guerra, mas a Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos (SECO), responsável pelo monitoramento das exportações de materiais de guerra, não considerou que as acusações fossem bem fundamentadas, lembra a RTS.

A SECO confirmou à RTS que 106 fuzis de assalto e 300 submetralhadoras foram exportadas para a Arábia Saudita, mas destacou que essas transações datam de 2006, antes do início do conflito. A Suíça só vem monitorando o uso dos materiais de guerra que vende desde 2012. Em 2021, o Parlamento rejeitou uma moção para proibir todas as vendas de armas à Arábia Saudita. Nem o governo nem a Sig Sauer aceitaram comentar a utilização desses fuzis no conflito do Iêmen.

Tanques suíços nas favelas do Brasil

A RTS também divulgou que a Suíça havia exportado para o Brasil 30 tanques Piranha, veículo de transporte de tropas blindado, produzido no cantão de Thurgau (Turgóvia) pela empresa Mowag.

As autoridades brasileiras tinham justificado esta compra com uma operação de manutenção da paz no Haiti, mas apenas quatro tanques chegaram em solo haitiano. Os outros foram adaptados para serem mais ofensivos e então utilizados no combate ao tráfico de drogas nas favelas do Rio.

Em uma dessas favelas, a Temps Présent encontrou uma vítima colateral, que se viu no meio de um tiroteio enquanto o exército brasileiro utilizava um tanque Piranha. O homem foi baleado várias vezes, ficando paralisado, e teve que amputar uma perna.

A SECO realizou inspeções e constatou que não havia obstáculos para a entrega dos tanques da Mowag ao Brasil.

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Deputado denuncia “hipocrisia”

Convidado a comentar estas revelações, o deputado socialista Baptiste Hurni disse à RTS que “a legislação suíça sofre de uma dupla hipocrisia” – por um lado, no que diz respeito à definição de zonas de guerra e, por outro, no que é considerado como material militar. Ele acredita que o projeto que enrijece as condições de exportação, aprovado em 2021, não mudará muita coisa.

“A Arábia Saudita não era considerada uma zona de guerra, apesar de ser conhecida por ser extremamente instável: essa é a primeira hipocrisia”, exemplificou. “A segunda hipocrisia é o que eu chamo de ‘síndrome do taco de beisebol’: se você vender dez tacos de beisebol para um grupo criminoso, você pode dizer que vão usá-los para jogar beisebol? Não, provavelmente eles os utilizarão para fins criminosos.” Para o deputado de esquerda, “foi exatamente isso que aconteceu” com o avião Pilatus.

A Suíça, um “pequeno fornecedor”

À direita no espectro político, considera-se que, a partir do momento em que a Suíça vende materiais de guerra, é difícil evitar sua utilização em conflitos. “Estes objetos podem ser revendidos e, infelizmente, acabar em países que estão em conflito”, declarou o senador Olivier Français, do PLR/FDP, à RTS. “Também devemos preparar as nossas defesas, para que não desarmemos completamente o nosso país”.

Embora ele não considere útil mudar o sistema, Olivier Français reconhece que a rastreabilidade é um problema. O equipamento suíço vendido no exterior não deveria ser reexportado, mas a investigação mostra que foi o que aconteceu com o avião Pilatus.

Ele acrescentou que a Suíça é “um fornecedor muito pequeno (...) em comparação com muitos outros países ao nosso redor”. Isso é verdade: em 2019 e 2020, a Suíça representou menos de 1% do volume global de exportação de armas.

O setor, contudo, é importante não apenas para a segurança, mas também para a economia suíça: a quantidade de exportações suíças de materiais de guerra aumentou constantemente desde 2016 e atingiu seu recorde em 2020, movimentando mais de 900 milhões de francos suíços.

Conteúdo externo

Adaptação: Clarice Dominguez
(Edição: Alexander Thoele)

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