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Como a guerra na Ucrânia provoca a próxima crise alimentar

Distribuição de trigo durante visita de Michael Dunford, diretor regional do Programa Alimentar Mundial (PMA) em Adadle, Etiópia, em 22 de janeiro de 2022. Keystone / Claire Nevill

A guerra na Ucrânia aumenta risco de escassez na exportação de alimentos, combustível e fertilizantes, colocando em risco a vida de milhares de africanos. Agências de ajuda humanitária alertam para o perigo.

Este conteúdo foi publicado em 18. maio 2022 - 11:00

No início do ano, o Nordeste Africano enfrentava a terceira pior seca dos últimos dez anos. A região já havia sofrido nos últimos anos com uma praga de gafanhotos, a pandemia de Covid-19, o aumento dos preços dos alimentos e outros conflitos, que a tornaram particularmente vulnerável a uma nova crise.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) temia que, se a ajuda à região não fosse reforçada, o resultado seria uma catástrofe humanitária sem precedentes. Então propôs garantir o fornecimento de alimentos a 1,93 milhões de pessoas durante os próximos seis meses em comunidades rurais para evitar que a situação da fome na Etiópia, Somália e Quênia se deteriorasse.

"Porém, desde o início do ano, a situação piorou", diz David Phiri, o coordenador sub-regional da FAO para a África Oriental. O período de chuvas, que dura de março a maio, trouxe precipitações abaixo da média para a região, que agora enfrenta a pior seca em quarenta anos.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU alerta que o número de pessoas incapazes de produzir ou obter alimento no Nordeste Africano pode aumentar de 15 milhões para 20 milhões em 2022.

Enquanto isso, na África Ocidental e Central, mais de 40 milhões de pessoas podem não ser capazes de atender às suas necessidades alimentares básicas. "Diferentes fatores se somaram e levaram a uma deterioração da segurança alimentar na região", afirma Ollo Sib, do PMA. "E essa situação ocorreu antes de iniciar o conflito na Ucrânia".

Impacto da guerra

A guerra na Ucrânia perturbou as cadeias de abastecimento globais e elevou os preços dos alimentos, combustível e fertilizantes a níveis recordes.

O índice de preços de alimentos da FAO, que acompanha os preços globais de uma cesta de commodities, atingiu um recorde histórico em fevereiro e, novamente, em março. O crescimento mensal (de fevereiro a março: 12,6%) foi o segundo maior da história (computação desde 1990). Em abril, o índice se estabilizou um pouco abaixo de seu pico.

O aumento foi impulsionado pelos preços dos cereais e óleos vegetais, que dispararam devido ao impacto da guerra na Ucrânia sobre as cadeias de abastecimento. A Rússia e a Ucrânia são os principais exportadores de cereais como trigo, milho e óleos vegetais, sobretudo de sementes de girassol. A Rússia também é um dos principais exportadores de fertilizantes.

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"A ruptura da cadeia de abastecimento é um desastre para os países da África Ocidental", afirma Sib. A região depende muito das importações, sobretudo de alimentos e fertilizantes da Ucrânia e Rússia.

Os aumentos de preços do trigo já tiveram um impacto sobre as pessoas que vivem na região. "O preço do pão em alguns países chegou a aumentar em 20%", diz Sib. "Um problema grave, pois o pão continua sendo o principal alimento para as pessoas mais vulneráveis, especialmente nas áreas urbanas", diz.

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Mas os altos preços dos combustíveis e fertilizantes também ameaçam perturbar ainda mais a situação alimentar na região.

A maioria dos agricultores da África Ocidental e Central dependem dos governos para ter acesso a fertilizantes subsidiados. Sib afirma que muitos governos não serão capazes de pagar os preços inflacionados. Se os agricultores não puderem pagar os fertilizantes e o combustível de que precisam este ano, a produção de alimentos também será afetada no ano que vem.

Ajuda dificultada

As agências de assistência também sentiram o impacto da ruptura das cadeias de abastecimento e do aumento dos preços.

O Programa Mundial de Alimentos, a maior agência humanitária do mundo, costumava comprar mais da metade dos grãos da Ucrânia e Rússia. Hoje gasta mais 71 milhões de dólares por mês para atingir o mesmo número de pessoas do que antes da guerra. Essa mesma quantia poderia ser usada para alimentar quatro milhões de pessoas durante um mês.

A agência apoia comunidades em países devastados pela guerra. No Iêmen, 13 milhões de pessoas de uma população de 31 milhões dependem do programa para se alimentar.

Segundo Sib, as atividades do programa na África Ocidental e Central também começaram a sofrer. A ONU apoia programas nacionais de alimentação escolar que funcionam independentemente. Mas alguns governos estariam agora solicitando ajuda adicional, pois não podem mais pagar por determinados alimentos.

O PMA também distribui dinheiro para as pessoas da região para comprar alimentos, mas com o aumento dos preços, seu poder de compra diminuiu.

Protecionismo alimentar

Phiri e Sib temem que, frente ao aumento dos preços, a comunidade internacional reaja como nos primeiros dias da pandemia de Covid-19. Os países poderiam priorizar o que é melhor para eles a curto prazo, ignorando o que é melhor para o mundo a longo prazo. "Estas duas crises - pandemia e a Ucrânia - mostraram a tendência de muitos países de optar pelo protecionismo", considera Sib.

Alguns países, incluindo a Rússia e a Ucrânia, restringiram ou proibiram as exportações de trigo para proteger seu abastecimento interno. A Índia, o segundo maior produtor mundial de trigo, intensificou suas exportações para preencher a lacuna deixada pela guerra na Ucrânia. Mas agora há receios de que temperaturas, anormalmente altas no país em março e abril, possam afetar sua produção de trigo e levar suas autoridades a introduzir restrições.

A Indonésia, que produz mais da metade do óleo de palma do mundo, anunciou no mês passado uma proibição de exportação do óleo vegetal mais comercializado no mundo.

De acordo com o Instituto de Pesquisa da Política Alimentar (IFRI), 19 países impuseram proibições às exportações de alimentos que, em termos de calorias, representam 12% do comércio mundial de alimentos.

A ONU em bloco - do secretário-geral até os chefes do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI), do PAM e até a Organização Mundial do Comércio (OMC) - apelaram aos governos de todo o mundo para que retirem quaisquer proibições e restrições à exportação de alimentos e mantenham os mercados abertos.

Em 6 de maio, 51 dos 164 membros da OMC, incluindo Grã-Bretanha, EUA e União Europeia, se comprometeram a atender os pedidos. Mas países produtores importantes como Índia, Indonésia, Brasil e Argentina não atenderam os pedidos.

Fundos suficientes

No final do ano passado, a ONU estimava que 274 milhões de pessoas necessitariam assistência humanitária em 2022. Esse número é agora provavelmente significativamente maior. "O sofrimento humano global já era sem precedentes antes do início da guerra na Ucrânia", considera Jan Egeland, secretário-geral do Conselho Norueguês para Refugiados (NRC).

Tanto o PAM quanto a FAO reavaliam hoje suas necessidades para o resto do ano. "O número de pessoas em insegurança alimentar aumenta à medida que a situação se deteriora", considera Sib. "Nosso plano foi preventivo, mas agora chegamos a um ponto em que precisamos responder a um problema crescente", completa Phiri.

Arrecadar fundos é um desafio. Em abril, a ONU teve sucesso com uma campanha de ajuda ao Nordeste Africano. Os doadores quase atenderam os pedidos feitos pelas agências humanitárias. Mas nem todas as crises obtém a mesma resposta. Um apelo semelhante no início de 2022 de ajuda ao Iêmen conseguiu angariar menos de um terço da soma calculada pelas agências como necessária.

"Devemos assegurar que os países doadores não retirem fundos dos orçamentos de ajuda em outras crises para preencher as lacunas para a Ucrânia. As consequências para milhões de pessoas seriam concretas", diz Egeland.

Tanto Phiri como Sib ressaltam que a fome gera conflitos - e que, portanto, é importante não apenas responder às necessidades humanitárias atuais, mas também investir no desenvolvimento para construir sistemas resilientes.

"Sem alcançar a estabilidade política, será difícil alcançar as metas de segurança alimentar", diz Sib.

Colaboração: Abdelhafidh Abdeleli. Gráficos: Pauline Turuban.

Editado por Imogen Foulkes.

Adaptação: Alexander Thoele

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