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Pandemia tem sido "devastadora" para as enfermeiras suíças

Enfermeira em uma unidade de terapia intensiva do Hospital Universitário de Lausanne, em novembro de 2020. A pandemia atingiu duramente a região de língua francesa (assim como a região de língua italiana) da Suíça. Keystone / Jean-Christophe Bott

Em 2020, uma pesquisa da SWI swissinfo.ch sobre as condições de trabalho de enfermeiras em hospitais suíços encontrou um quadro sombrio: estresse, descontentamento e frustração. Quase dois anos depois, entrevistamos novamente enfermeiras para entender se alguma coisa mudou na esteira da pandemia do coronavírus.

Este conteúdo foi publicado em 22. novembro 2021 - 16:00

“Horas extras são praticamente a norma” . “Há uma pressão enorme para economizar dinheiro. Os médicos também têm muito trabalho, mas pelo menos são bem pagos”. “ Depois de um certo ponto você não pode continuar e simplesmente desmaia, mas isso não interessa ao empregador”. “Se eu pudesse, iria para outra linha de trabalho”.

Essas são algumas das respostas que ouvimos de enfermeiras em hospitais suíços Link externono início do ano passado. Mesmo antes de a pandemia chegar, as profissionais já descreviam o trabalho como exaustivo e de pouco reconhecimento. Grande parte tinha escolhido a profissão como uma vocação ou paixão, mas com o tempo havia se desiludido profundamente.

Um ano e meio depois, a situação não está melhor - muito pelo contrário. “A pandemia teve um efeito devastador”, disse Pierre-André Wagner, chefe do departamento jurídico da Associação Suíça de Enfermeiros.

'Estamos exaustos'

As enfermeiras lidaram muito bem com a primeira onda do vírus Sars-CoV-2, porque acreditavam que seus esforços ajudariam a acabar rapidamente com a pandemia, diz Wagner. “Porém, quando as enfermeiras perceberam que as condições de trabalho e remuneração não iriam melhorar, foram atingidas por sentimentos de resignação, raiva e frustração. O público aplaudiu e reconheceu sua contribuição, mas os políticos não fizeram nada”.

Ainda mais deprimente foi o “êxodo” que se seguiu: enfermeiras abandonando a profissão uma após a outra, deixando uma carga de trabalho maior para os que permaneceram, observa Wagner. Nas enfermarias de terapia intensiva, o quadro de funcionários diminuiu em 10-15%.

O lockdown era necessário para poupar hospitais

“O que ficou bem claro é que quando você fala sobre a importância do enfermeiro para o sistema, você não está falando apenas do sistema de saúde, mas do funcionamento da sociedade como um todo”, diz Wagner.

“Mesmo em circunstâncias normais, os hospitais na Suíça operam no limite de sua capacidade. Com a pandemia, tivemos que estabelecer políticas de isolamento na sociedade para evitar sobrecarregar as enfermarias de emergência e de tratamento intensivo. Mas tudo isso não teria sido necessário se nos anos anteriores não tivéssemos feito cortes nos cuidados de saúde e se tivéssemos de fato aumentado o número de funcionários”.

Cuidados de enfermagem nas urnas

Em 28 de novembro, os eleitores suíços decidirão sobre a iniciativa popular “Por cuidados de enfermagem fortes”. A iniciativa lançada pela Associação Suíça de Enfermeiros reivindica investimento na formação qualificada de profissionais de  enfermagem e pede garantia de melhores condições de trabalho. O objetivo da proposta é diminuir a dependência de profissionais de países terceiros e lidar com o número crescente de pacientes. Aqui estão informações completas sobre a iniciativa e contra-propostas do parlamento.

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'Salário muito baixo'

O Observatório de Saúde Suíço (OBSAN) constatou que mais de 40% das enfermeiras abandonaram a profissão precocemente. Um terço, com menos de 35 anos.

A melhoria das condições de trabalho ajudaria a acabar com este desgaste prematuro e remediar a falta de pessoal qualificado na área, aponta um estudo da Universidade de Ciências Aplicadas de Zurique ZHAW, publicado no final de outubro.

A pesquisa sugere que as condições de trabalho não atendem às expectativas. Seis anos após o início da profissão, nove em cada dez enfermeiras de nível superior estão aptas para trabalhar na profissão por mais dez anos, mas somente se as condições de trabalho melhorarem, observa René Schaffert, que liderou a pesquisa.

O pessoal de saúde vai às ruas de Lucerna em outubro de 2020 para exigir melhores condições de trabalho. Keystone / Urs Flüeler

O relatório revela uma lacuna entre as expectativas e a realidade em vários aspectos da profissão, principalmente na remuneração.

“Para os enfermeiros, o bom pagamento pode não ser o principal problema, mas eles sentem que recebem muito pouco pelo que fazem”, ressalta Schaffert. Além do mais, 57% dos participantes esperavam um maior grau de suporte da administração. “Isso mostra uma forte necessidade de ser mais bem valorizado pelo empregador e pela sociedade em geral”, afirma.

Para a classe, é duro ver que todas as organizações de empregadores no setor da saúde se opõem à iniciativa sobre os cuidados de enfermagem (que será votadaLink externo em 28 de novembro), diz Wagner. “A posição deles é mais uma fonte de frustração para nós. As enfermeiras se sentem traídas por seus próprios empregadores. ”

Quanto ganha o pessoal de enfermagem?

O salário médio para enfermeiras com graduação na Suíça é de CHF 7.429 ($8.010) por mês (antes das deduções, mas incluindo o bônus de fim de ano de um “13º mês”). Auxiliares de enfermagem recebem CHF5.433 e auxiliares de saúde recebem cerca de CHF5.12 - de acordo com estatísticas do governo. O Sindicato das Enfermeiras contesta esses números.

A emissora pública de língua francesa RTS contatouLink externo vários hospitais na Suíça francófona. Segundo as entrevistas, o salário mensal bruto varia de CHF 5.505 a CHF 7.084 para os profissionais de enfermagem em início de carreira e de CHF 8.078 à CHF 9.491 para enfermeiros especializados com 15 anos de experiência.

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Como ajudar o pessoal de enfermagem

Stefan Althaus, chefe de comunicação da associação de hospitais suíços (H +), confirma que a pandemia afetou a equipe, que ele diz estar “cansada e esgotada”. Ele também aponta o problema da falta de pessoal qualificado, principalmente em áreas especializadas como a terapia intensiva nas UTIs.

“No entanto, não podemos esquecer que tomando as vacinas a sociedade pode ajudar muito os funcionários do hospital. Mais vacinas significam menos hospitalizações”, disse ele à SWI swissinfo.ch por e-mail.

O relatório de 2021 do OBSAN sobre saúde mostra que os esforços no ensino e na formação fizeram a diferença, mas ainda não foram suficientes. “A contraproposta à iniciativa sobre cuidados de enfermagem oferece uma solução imediata para remediar a carência de pessoal qualificado”, disse Althaus.

No entanto, ele diz que a necessidade de melhores condições de trabalho e a lacuna de profissionais não pode ser resolvida no nível constitucional. O que é necessário é um diálogo entre os parceiros sociais e a criação de condições de financiamento e tarifação dos hospitais em conformidade com a legislação sobre seguros de saúde.

“Cada vez que clamamos por melhorias nas condições de trabalho ou na formação profissional, a resposta é sempre a mesma: não há dinheiro”, lamenta Wagner. Para ele, o problema é muito mais amplo e vai além da atual crise de saúde. “Toda a concepção do nosso sistema de saúde está errada: é considerado um setor econômico com o objetivo de obter lucro, quando na verdade precisa ser um serviço público”.

Adaptação: Clarissa Levy

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