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Os segredos da Philip Morris sobre o fumo passivo

O problema de que fuma sem ser fumante Keystone

Desde 1982, o gigante do tabaco tinha em mãos um estudo científico provando a nocividade do cigarro para os não-fumantes.

Este conteúdo foi publicado em 12. novembro 2004 - 17:16

Foi o que descobriram dois suíços e um britânico, através da filial de um laboratório secreto que passa duas vezes pela Suíça.

«A verdade, somente a verdade, toda a verdade? As pesquisas que a Philip Morris queria esconder". Com esse título, a prestigiosa revista médica britânica The Lancet publica esta semana um artigo assinado por um técnico em informática e dois médicos: Pascal Diethlem e Jean-Charles Rielle (de Genebra) e Martin McKee (de Londres).

Sabe-se agora que o gigante norte-americano do cigarro financiou durante 30 anos estudos muito secretos acerca da nocividade do tabagismo passivo. E que, desde 1982, os dirigentes da multinacional detinham resultados que provavam a nocividade.

Para obtê-los, os pesquisadores submeteram ratos a um ambiente densamente enfumaçado. Constataram então, de maneira evidente, que os roedores desenvolviam lesões da mucosa nasal mais importantes do que outros ratos que inalavam diretamente a fumaça do tabaco.

Somente doze anos mais tarde, em 1994, é que a Philip Morris admitiu os perigos do tabagismo passivo. É o que afirma o artigo da Lancet.

Parece romance de espionagem

A história que os autores contam é digna de uma romance de espionagem. Em 1972, a multinacional do tabaco comprou, às escondidas, o laboratório alemão Inbifo, através da Fabricas de Tabaco Reunidas, uma de suas filiais na Suíça.

A Philip Morris toma todas as precauções para que ninguém descubra qualquer ligação com a Inbifo. A correspondência passa por endereços privados e os documentos são destruidos depois de lidos pelos raros executivos que tinham conhecimento do projeto.

"É uma montagem extraordinária, comenta Pascal Diethelm. Um dispositivo com três unidades, propriedade a 100% da Philip Morris, e que se comunicam através de um personagem externo".

Esse personagem é um professor Ragnar Rylander, funcionário do Instituto de Medicina Social e Preventiva da Universidade de Genebra, muito bem pago e secretamente pela Philip Morris para minimizar sistematicamente os perigos do tabagismo passivo.

«Fraude científica sem precedentes»

Em março de 2001, Jean-Charles Rielle e Pascal Diethlem (presidente da OxiGenève, associação que defende os direitos dos não-fumantes), denunciam publicamente o caso.

Falam então "de uma fraude científica sem precedentes" e são atacados em justiça por Rylander e condenados em primeira e segunda instâncias, por difamação. Recorreram e ganharam no Supremo Tribunal Federal, em dezembro de 2003.

Uma comissão interna da Universidade de Genebra reconhece as denúncias como verídicas mas recusa-se a sancionar Rylander, que já estava aposentado.

Outra peça no dossiê

Como publicado na Lancet o artigo é uma descrição do caso Rylander.

"Ao preparar nossa defesa é que encontramos os documentos que fundamentam o artigo, explica Pascal Diethelm. Ficou evidente o dispositivo em que a peça central era o professor Rylander".

Depois de analisarem milhares de páginas de documentos, os três autores garantem que trata-se de uma verdadeira revelação, com fatos nunca abordados nem mesmo nos tribunais dos Estados Unidos.

Atualmente, os ministério estadunidense da Justiça processa a indústria do tabaco e reclama 285 bilhões de dólares de multa, soma que considerada ganha pela indústria através de procedimentos do crime organizado.

"Nosso artigo é uma peça a mais nesse dossier", conclui Pascal Diethelm.

swissinfo, Marc-André Miserez
tradução, Claudinê Gonçalves

Breves

- Segundo a Secretaria Federal de Saúde Pública, 71% dos suíços não fumam.

- No entanto, 90% dos suíços são expostos à fumaça dos fumantes; 25% são expostos uma hora por dia, 21% durante uma a três horas e 6% durante mais de três horas por dia.

- Um estudo recente estima que, nos Estados Unidos, 50 mil pessoas morrem por ano devido o tabagismo passivo. Na Suíça, a estimativa é de várias centenas de mortos por ano.

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