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O que a guerra da Ucrânia significa para a política energética da Suíça

Cerca da metade do gás natural utilizado na Suíça vem da Rússia. Os distribuidores suíços se abastecem principalmente dentro da UE, como na Alemanha e na França. Keystone / Maxim Shipenkov

A guerra na Ucrânia e a consequente ameaça de insegurança energética estão forçando muitos países a reconsiderar suas atuais políticas. Tais consequências também chegaram na Suíça, que já está reavaliando seu abastecimento de gás para o próximo inverno.

Este conteúdo foi publicado em 25. março 2022 - 14:00
Olivia Chang

Sendo o maior exportador mundial de petróleo e gás juntos, a Rússia é uma peça-chave no quebra-cabeça energético global. A invasão da Ucrânia pela Rússia e as sanções que se seguiram já afetaram o futuro fornecimento de petróleo e gás. Os Estados Unidos anunciaram que estão proibindo a importação de petróleo da Rússia. Enquanto isso, a Comissão Europeia apresentou um plano para reduzir em dois terços, ainda este ano, a dependência do bloco do gás russo. A Suíça também está avaliando a segurança de seu futuro abastecimento e produção de energia.

“A Rússia é um importante fornecedor de gás natural e urânio para a Suíça e para o resto da Europa. Assim, a invasão russa da Ucrânia e a forma como o resto do mundo, inclusive a Suíça, reagiu impondo sanções contra a Rússia desestabilizaram o fornecimento de energia”, diz Aya Kachi, professora de política energética na Universidade de Basileia.

O gás representa cerca de 15% do consumo final de energia na Suíça e é utilizado majoritariamente para sistemas de aquecimento e na cozinha. Aproximadamente metade desse gás vem da Rússia, embora não haja relações contratuais diretas com empresas russas. Os distribuidores suíços obtêm seu gás principalmente de países da União Europeia, como França e Alemanha.

A fim de se preparar para o inverno de 2022-2023, o governo suíço intensificou seu esforços para adquirir gás e aumentar a capacidade de armazenamento e a importação de gás natural liquefeito (GNL), de acordo com um anúncioLink externo feito no início deste mês. O governo suíço também suspendeu leis antitruste para que as empresas de gás possam firmar acordos conjuntos de armazenamento e fornecimento.

Embora o governo garanta o abastecimento de gás neste inverno, ele adverte que a escassez do produto continua sendo um “risco residual”. No momento, a Suíça não possui nem uma grande capacidade de armazenamento de gás natural nem sua própria reserva de gás. Isso significa que qualquer grande interrupção no fornecimento – se a Rússia cortasse o fornecimento de gás para a Europa, por exemplo – exigiria que os consumidores reduzissem seu consumo.

“Serão necessários grandes esforços conjuntos para garantir que a energia necessária para a demanda residencial e industrial esteja disponível”, diz Beat Ruff, vice-diretor de infraestrutura, energia e meio ambiente da Federação Suíça da Indústria, a Economiesuisse.

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Energia em transição

No entanto, o gás – que representa uma parcela relativamente pequena da energia na Suíça – é apenas uma parte da história. Atualmente, a Suíça está embarcando num ambicioso plano de transição energética chamado Estratégia Energética 2050, que foi motivado pelo desastre do reator de Fukushima no Japão em 2011. Os principais objetivos desta estratégia são manter um fornecimento seguro de energia, eliminar gradualmente a energia nuclear e reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

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A atual guerra na Ucrânia está acelerando tais debates e forçando a Suíça a lidar com sua estratégia energética a longo prazo. “A necessidade de aumentar a segurança do abastecimento tornou-se ainda mais urgente”, diz Patrick Dümmler, membro sênior do grupo de reflexão Avenir Suisse. “Dada a necessidade de substituir fontes fósseis utilizadas na mobilidade e no aquecimento, precisamos construir novas instalações para geração de energia.”

Esta urgência foi frisada durante um longo debate realizado este mês no parlamento suíço sobre as políticas governamentais e as possíveis consequências da guerra na Ucrânia.

“Precisamos expandir as energias renováveis com todas as nossas forças, é necessário aumentar o ritmo. Também temos que reduzir o desperdício de energia”, declarou a ministra da Energia Simonetta Sommaruga.

“Trindade energética”

A curto prazo, isso significa que a Suíça terá que reforçar sua capacidade de armazenamento e diversificar seu mix energético e sua carteira de fornecedores. De acordo com Dümmler, isso pode incluir o aumento da produção de energia hidrelétrica e a substituição do gás russo pelo GNL americano.

Tal substituição será um desafio para Suíça, que, sem litoral, precisará de uma rota de abastecimento para o GNL. O gás natural é liquefeito a fim de reduzir seu volume em cerca de 600 vezes para que ele possa ser facilmente transportado em navios-tanque. Ao ser aquecido, o gás retorna ao seu estado original (regaseificação) e pode ser inserido na rede de gasodutos. Mas, de acordo com dados da Reuters, os terminais portuários europeus voltados para este processo já estão atingindo seus limites.

A longo prazo, uma opção seria aumentar a produção de gás renovável, também conhecido como biometano (que se origina de resíduos orgânicos, como esterco ou restos de alimentos). O objetivo seria, com o tempo, transformar todo o fornecimento de gás em energia renovável e climaticamente neutra. Os especialistas concordam que em qualquer cenário haverá um certo nível de dependência de importações, uma vez que a independência energética total seria muito cara para a Suíça.

De acordo com a Fundação Suíça de Energia, o consumo final de energia da Suíça já depende em 74,6% de outros países. Esta porcentagem só diminuiu cerca de 5% desde 2001. Esse número poderia cair mais se a Suíça se mantivesse fiel à sua Estratégia Energética 2050 e investisse em mais fontes de energia favoráveis ao meio ambiente, como a energia solar. Mas a dependência sempre será alta.

A questão aqui é conseguir um equilíbrio entre segurança energética, sustentabilidade e soberania. Philipp Thaler, professor de governança energética na Universidade de St. Gallen, refere-se a isto como a “trindade energética impossível”. “De alguma forma, há um objetivo a mais nesta equação”, afirma. Em sua opinião, a Suíça teria que aceitar concessões, tais como perder a soberania energética ou sacrificar a sustentabilidade.

Kachi acredita que um equilíbrio entre segurança e sustentabilidade só pode ser alcançado avaliando diferentes opções de energia ao mesmo tempo. “Se o governo propuser novas usinas a gás, por exemplo, seus riscos ambientais e geopolíticos também devem ser comparados aos das energias nuclear, hidrelétrica e das novas energias renováveis – todas as opções viáveis. Esta é uma tarefa desafiadora que até agora não temos conseguido realizar muito bem.”

Todos os olhos voltados para a Europa

Em última instância, garantir o fornecimento de energia para a Suíça dependerá de uma estreita cooperação com a Europa. Todas as importações de energia da Suíça dependem da infraestrutura europeia: estradas, gasodutos e oleodutos.

“Uma vez que todas as importações de combustíveis vêm por rotas europeias, um ponto será central: uma boa articulação com a UE”, diz Hannes Weigt, professor de economia da energia na Universidade de Basileia. “Como atualmente há muita movimentação na UE em relação a como lidar com a situação do fornecimento de energia de modo geral, as opções que a Suíça terá dependerão fortemente do que eles decidirem.”

Kai Reusser / swissinfo.ch

A Rússia continua sendo o principal exportador de petróleo, gás natural e carvão para a UE, que importa cerca de 40% de seu gás e 25% do petróleo bruto do país. Essa dependência tem impedido a Europa de proibir completamente a importação de energia russa como fizeram suas contrapartes americanas e britânicas. Apesar disso, o bloco ainda está tomando medidas para aumentar as remessas de GNL e acelerar a produção de gases renováveis.

A partir de agora, a forma como a Suíça se relaciona com seus vizinhos pode se revelar crítica para o país sem litoral. “Este é um pequeno país no coração da Europa, que não é membro da União Europeia nem faz parte de nenhum acordo de energia com seus vizinhos”, diz Thaler. “O que acontecerá se houver escassez de eletricidade ou de gás? Os vizinhos cortariam primeiro o fornecimento para a Suíça?”

Em 2021, a Suíça encerrou as negociações do acordo-quadro com a UE, afastando as perspectivas de um acordo sobre eletricidade a curto e médio prazo. Isso significa que, atualmente, o país está excluído de qualquer acordo de solidariedade para o fornecimento mútuo de gás em emergências. Dada a interrupção das negociações prévias entre a Suíça e a UE, Kachi se pergunta se ainda é possível que a Suíça “consiga a colaboração ou o apoio necessário da UE caso seja necessária, no futuro, uma negociação multilateral sobre o fornecimento de recursos”.

Crise do preço da energia

O clima geopolítico e a persistente incerteza também estão levando a um aumento global nos preços da energia. A partir de sexta-feira, 18 de março, o preço do Brent crude (tipo de petróleo) foi para 106 dólares por barril (CHF 99), após quase atingir 130 dólares na semana anterior. “A médio prazo, veremos uma reação nos mercados: a demanda diminuirá devido aos preços mais altos, os consumidores optarão por tecnologias sem [o uso de combustíveis] fósseis e as importações de fontes não-russas aumentarão”, diz Dümmler. Ele acrescenta que, na Suíça, o impacto do aumento dos preços da energia na inflação será menor porque “um franco suíço em alta amortece o aumento dos preços das fontes de energia importadas”. O franco suíço chegou recentemente à paridade em relação ao euro: atualmente, 1 franco suíço vale 0,97 euros.

Ainda assim, os lares suíços estão sentindo as repercussões dos acontecimentos. De acordo com estatísticas oficiais, o preço do óleo para aquecimento aumentou 8,5% em fevereiro – um aumento de mais de 48% em comparação com a mesma época no ano passado. O custo da gasolina também saltou 5,3% só de janeiro a fevereiro deste ano.

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Adaptação: Clarice Dominguez
(Edição: Fernando Hirschy, Alexander Thoele)

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