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Vazamento de dados do banco Credit Suisse revela fortuna de mais de US$ 100 bilhões

Credit Suisse é o segundo maior banco suíço depois do UBS. © Keystone / Ennio Leanza

Um consórcio de mídias internacionais revelou dados sobre mais de 18 mil contas no Credit Suisse, o segundo maior banco da Suíça. Somadas, as contas continham mais de US$ 100 bilhões, dinheiro que pertencia a ditadores, funcionários corruptos ou traficantes. O banco nega as acusações.

Este conteúdo foi publicado em 21. fevereiro 2022 - 09:00
Keystone-SDA/OCCRP/jdp

A investigação, com o codinome de "Suisse Secrets", teria encontrado dezenas de contas problemáticas que somam mais de oito bilhões de dólares em ativos. Algumas das contas foram mantidas por pessoas envolvidas em escândalos de corrupção em alguns dos países mais pobres do mundo.

A investigação global foi liderada pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que compartilhou os dados entregues por um denunciante anômino e compartilha com a organização sem fins lucrativos Projeto de Investigação do Crime Organizado e Corrupção (OCCRP, na sigla em inglês) e 46 outra mídias no mundo. Segundo o consórcio, nenhuma mídia suíça participou das investigações devido ao risco de processo criminal. Os dados foram divulgados por um denunciante auto-descritivo.

Entre os titulares de contas estão funcionários do alto escalão acusados de desviar fundos da Venezuela, um banqueiro em Angola, investigado pelas autoridades em Portugal após a falência fraudulenta do banco com 5,7 bilhões de dólares em dívidas indetectáveis, e um chefe de espionagem no Iêmen, implicado em acusações de crimes contra os direitos humanos.

Especialistas que analisaram as informações publicadas pelo consórcio de mídia afirmam que muitas dessas pessoas não deveriam ter sido autorizadas a fazer transações bancárias no Credit Suisse, levantando questões sobra falhas de controle do segundo maior banco da Suíça.

"Essas pessoas não deveriam poder ter movimentado dinheiro nas suas contas se o dinheiro tinha origem suspeita", ressalta Graham Barrow, especialista independente em crimes financeiro. "Bancos têm o dever claro de garantir que fundos movimentados tenham proveniência clara e legítima".

Resposta do CS

Além de analisar acuradamente milhares de páginas de documentos, os jornalistas que participaram das investigações também entrevistaram uma dezena de funcionários e ex-funcionários do Credit Suisse, que pediram para seus nomes não serem citados devido ao risco de processos penais na Suíça. Embora alguns tenham declarado que os sistemas de controle de segurança tinham melhorado nos últimos anos, o banco teria falhado por apostar em uma cultura de trabalho que incentivava a tomada de riscos para maximizar lucros e bônus.

Grandes contas são mantidas em segredo. Apenas funcionários em alta posições têm acesso a elas. O banco deve proceder a todas as devidas diligências ao administrar contas com mais de um milhão de dólares em depósito, mas quando se trata de contas de valor líquido, "a direção incentiva todos a fecharem os olhos", declarou um funcionário do banco entrevistado pelo consórcio.

Em resposta às revelações, o Credit Suisse publicou um comunicado à imprensa, onde "rejeita fortemente as alegações e insinuações sobre as supostas práticas ilegais do banco". E ressaltou que "as questões apresentadas ocorreram no passado, em alguns casos datando dos anos 1940. Outras afirmações "seriam imprecisas ou foram retiradas do contexto, resultando em interpretações tendenciosas da conduta comercial do banco".

O CS acrescentou que aproximadamente 90% das contas citadas na investigação estão fechadas ou já estavam em processo de fechamento. Também ressaltou que "leva a sério o suposto vazamento de informações", lembrando que aplica um rigoroso sistema de proteção de dados.

O Credit Suisse tem estado no centro de grandes escândalos recentemente. No mês passado, seu presidente, o português António Horta-Osório, pediu demissão por ter violado as restrições da pandemia de Covid-19 mais de uma vez, inclusive em uma viagem a Londres, no ano passado, para assistir às finais de tênis em Wimbledon.

Em outubro de 2021, o CS concordou em pagar US$ 475 milhões às autoridades americanas e britânicas para fechar investigações sobre um esquema de propina e suborno em Moçambique. Um julgamento foi iniciado este mês, no qual o banco foi acusado de permitir que traficantes de drogas lavassem dinheiro.

Situação legal na Suíça

Os artigos publicados pelo consórcio de mídia criticam a Lei de sigilo bancário vigente na Suíça. Apesar das promessas de melhoria, os bancos ainda estariam permitindo que clientes duvidosos escondam dinheiro.

"A ironia é que a Suíça se tornou o lugar para esconder dinheiro sujo devido à confiabilidade do país e a qualidade da sua administração financeira", declara James, da Rede por Justiça Fiscal (TJN, em inglês), uma coalizão independente de ativistas e investigadores baseada na Grã-Bretanha citada nos artigos. "O modelo empresarial de desviar dinheiro dos países pobres é o problema".

A investigação é "um vislumbre revelador por trás da cortina do sigilo bancário suíço" escreve a OCCRP.

No ano passado, as autoridades suíças descobriram nove bilhões de francos (US$ 10 bilhões) em fundos públicos venezuelanos desviados, espalhados por centenas de contas bancárias. Um em cada oito bancos suíços estava envolvido no escândalo.

Nos últimos anos, os bancos suíços foram forçados a tornar mais rigorosas e efetiva a comunicação de registros de transações suspeitas. Em 2018, o país começou a compartilhar automaticamente dados de clientes com as autoridades fiscais em dezenas de outros países. No entanto, está sob pressão para combater mais efetivamente a lavagem de dinheiro.

As leis bancárias do país também restringem a capacidade dos jornalistas de expor dados bancários privados sem o risco de processos criminais.

Mais vazamentos

"Suisse Secrets" é a mais recente de uma série de investigações sobre o sigilo bancário. Em outubro passado, a investigação intitulada "Pandora Papers" expôs o papel de advogados, contadores e consultores suíços na gestão da riquezas. O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) revelou o conteúdo de 11,9 milhões de documentos originados de paraísos fiscais relacionados com os assuntos financeiros de líderes políticos e outras personalidades.

Os documentos vazados incluíam detalhes de como vastas somas de dinheiro circulam pelo mundo, incluindo a Suíça, através de estruturas financeiras opacas.

Em 2016, a investigação "Panama Papers" mostrou que a Suíça estava entre os cinco principais países que utilizavam intermediários financeiros para criar empresas offshore com um escritório de advocacia panamenho.

Em 2017, "Paradise Papers" lançou mais luz sobre os escritórios de advocacia offshore, que tinham se ligado a figuras políticas e empresariais suíças.

Adaptação: Alexander Thoele

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