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"Para nos alimentarmos, estamos destruindo o planeta"

O uso intensivo da terra é uma das principais causas da perda da biodiversidade no mundo. AFP

Tanto a mudança climática quanto a perda de biodiversidade são causadas pela atividade humana e estão encerradas num ciclo interconectado. Isso faz com que seja indispensável uma ação global, afirma o chefe do principal órgão mundial de conservação de espécies.

Este conteúdo foi publicado em 09. maio 2022 - 11:00

Bruno Oberle é o diretor-geral da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCNLink externo, na sigla em inglês), sediada na Suíça. A organização é responsável por publicar a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, um inventário do status global da conservação de espécies vegetais e animais. Oberle, de 67 anos, é o primeiro suíço a ocupar o cargo mais alto da IUCN.

swissinfo.ch: Você é o chefe da principal organização mundial de conservação da natureza. É uma grande responsabilidade numa época em que os cientistas afirmam que o planeta está enfrentando sua sexta extinção em massa...

Bruno Oberle: Sim, de fato é, mas todos nós temos uma grande responsabilidade. Cuidar da natureza e da biodiversidade é fundamental para a humanidade. Nossa existência no planeta e a sobrevivência do nosso modelo de desenvolvimento dependem delas.

swissinfo.ch: Quais ecossistemas estão sofrendo a maior perda de biodiversidade?

B.O.: Vemos perdas significativas em todos os lugares. O número de espécies ameaçadas é particularmente alto em hotspots de biodiversidade como florestas tropicais. Mas também vemos espécies ameaçadas em ecossistemas um pouco mais inesperados, como, por exemplo, nos maquis do Mediterrâneo. Os ecossistemas de água doce também sofreram declínios particularmente dramáticos.

Extinção

Mais de 38.500 espécies estão ameaçadas de extinção. Isso representa 28% das quase 140 mil espécies estudadas pela IUCN. Entre as espécies ameaçadas, 26% são mamíferos, 41% anfíbios, 14% aves, 33% corais e 34% coníferas.

Nos últimos anos, a situação tem piorado para espécies como o dragão-de-komodo. Tubarões e arraias também estão em declínio devido à pesca intensiva e à crise climática.

Em contrapartida, o status de quatro espécies de atum pescadas comercialmente está melhorando, relata a IUCN.

Na Suíça, quase 60% das mil espécies de insetos do país estão ameaçadas ou potencialmente ameaçadas, de acordo com o primeiro relatório detalhado sobre insetos feito pelo governo, que foi publicado em 7 de setembro.

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swissinfo.ch: Urbanização, superexploração, desmatamento e poluição são apenas alguns dos fatores que contribuem para a perda da biodiversidade. Qual destes fatores mais o preocupa?

B.O.: É algo dramático de se dizer, mas é a produção de alimentos. Há tantos de nós vivendo na Terra e todos precisamos comer. É por isso que precisamos de uma agricultura de certo tamanho, utilizando grandes áreas. Mas as práticas agrícolas estão mudando fundamentalmente a estrutura das terras. A destruição completa de ecossistemas para dar lugar à agricultura e a influência nociva naqueles que restam têm afetado negativamente a biodiversidade. A fim de nos alimentarmos, estamos destruindo o planeta.

Bruno Oberle, 67 anos, é diretor-geral da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), sediada na Suíça. A organização é responsável pela publicação da Lista de Espécies Ameaçadas, um inventário do status global de conservação de espécies vegetais e animais. Oberle, 67 anos, é o primeiro suíço a ocupar o posto. Jo Simoes

Mas não precisa ser assim. Podemos imaginar práticas agrícolas e um sistema agroalimentar que forneçam alimentos de qualidade e suficientes para todas as pessoas, e ao mesmo tempo promovam a biodiversidade.

swissinfo.ch: Especialistas jurídicos de muitos países gostariam que o Tribunal Penal Internacional de Haia reconhecesse o ecocídio, ou atos ilegais que causam danos ao meio ambiente em larga escala ou a longo prazo, como um crime contra a humanidade. Você concorda com eles?

B.O.: Conceitos jurídicos sempre têm um impacto em nosso modo de pensar, então o fato de se debater isso já é bom. Obviamente, qualquer conceito jurídico só se torna operacional quando é transformado em lei. Por enquanto, há poucos países que contemplam o ecocídio em sua legislação.

Além do ecocídio, também devemos refletir sobre outro conceito relacionado, que seriam os direitos da natureza, ou o direito de uma espécie ou ecossistema à existência. Em alguns países, esta questão está em pauta ou já se encontra na esfera legislativa. No Equador, o direito da natureza foi incluído na Constituição, enquanto a Nova Zelândia deu direitos legais a alguns rios considerados sagrados por povos indígenas.

swissinfo.ch: O aquecimento global já está tendo impactos irreversíveis sobre a natureza, de acordo com um relatório sobre a mudança climática publicado recentemente pela ONU. Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas permite que espécies colonizem novos territórios. Como devemos entender a relação entre a crise climática e a biodiversidade?

B.O.: Toda mudança é um fator de estresse para um ecossistema e, portanto, para as espécies que nele vivem. O ecossistema deve mudar ou mover-se para dar lugar a outro tipo de ecossistema. Isso por si só não é problemático, é algo que acontece o tempo todo no planeta. O problema é a velocidade e a escala com que isso ocorre, como no caso do aquecimento global.

Na Suíça, o aumento da temperatura está forçando algumas espécies a migrarem para altitudes mais elevadas. As florestas de faia estão se movendo mais para cima e seu lugar no planalto suíço provavelmente será ocupado por carvalhos. Mas serão necessárias décadas para que isso aconteça.

O outro aspecto a ser considerado quando falamos sobre a crise climática é a capacidade dos ecossistemas de estabilizar as condições em que se encontram, por exemplo, absorvendo água ou moderando a temperatura. Os ecossistemas e a natureza em geral podem, portanto, nos ajudar a nos adaptarmos às mudanças climáticas. Eles também ajudam a mitigar as mudanças causadas pelo aquecimento global. Isso é muito importante, uma vez que soluções baseadas na natureza podem contribuir com até 30% da mitigação necessária para estabilizar o aquecimento abaixo de 2°C até 2030.

swissinfo.ch: Sua organização, a IUCN, estima que são necessários 700 bilhões de dólares por ano para lidar com a perda de espécies animais e vegetais. Onde vamos encontrar todo esse dinheiro?

B.O.: Não precisamos necessariamente "encontrar dinheiro", ou pelo menos não apenas isso. Devemos primeiro pensar em como o estamos utilizando. Todos os anos, cerca de 600 bilhões de dólares (567,6 bilhões de francos suíços) são gastos mundialmente em subsídios para a indústria de energia fóssil. Esses subsídios poderiam ser investidos na biodiversidade. Os subsídios para o setor agrícola também precisam ser revistos. Não se trata de eliminar os subsídios à agricultura, mas de exigir outros benefícios que favoreçam a biodiversidade.

Estimamos que, futuramente, cerca de 60 bilhões de dólares terão que ser mobilizados por ano. Os Estados devem chegar a um acordo sobre a repartição de investimentos público-privados. A discussão é semelhante àquela sobre os 100 bilhões de dólares por ano para o clima, com a diferença de que, no campo da biodiversidade, falta um contribuinte importante, a saber, os Estados Unidos, que não ratificaram a Convenção sobre Diversidade Biológica.

Formosa do Rio Preto, Bahia, Brasil: parte da savana tropical foi destruída para dar lugar à agricultura. AFP

swissinfo.ch: Quais países mais estão atuando para proteger as espécies marinhas e terrestres?

B.O.: Nos últimos anos, muitos países têm feito progressos palpáveis no aumento da quantidade e da qualidade de áreas protegidas e conservadas. Para citar alguns, Belize, Butão, Seychelles e Zâmbia superaram a meta de AichiLink externo para a proporção de áreas marinhas e terrestres protegidas [meta número 11].

Entretanto, para entender o quão bem as áreas protegidas e conservadas estão alcançando as metas de conservação, não basta olhar para o percentual de cobertura. Também precisamos ver se são as áreas corretas que estão sendo protegidas, a fim de garantir que todas as espécies e tipos de ecossistemas sejam contemplados, e se a proteção está sendo implementada de forma justa e equitativa para as comunidades locais.

A Lista Verde de Áreas Protegidas da IUCNLink externo fornece um parâmetro internacional para a conservação eficaz e equitativa.

swissinfo.ch: É responsabilidade dos Estados industrializados apoiar a conservação e a promoção da biodiversidade nos países em desenvolvimento?

B.O.: Não é apenas uma questão moral, é a realidade: os Estados desenvolvidos têm uma pegada ambiental muito maior do que outros. Nós consumimos mais por habitante e, portanto, temos que contribuir mais para resolver os problemas que estamos causando. Em segundo lugar, nosso impacto histórico sobre a biodiversidade, bem como sobre o clima, é muito maior que o dos países em desenvolvimento. Não estamos contribuindo apenas para a perda da biodiversidade hoje; também já o fizemos no passado.

Há ainda um terceiro aspecto. Para proteger adequadamente a biodiversidade, os países que abrigam grandes riquezas biológicas são exortados a fazer mais esforços do que os outros. Mas não é justo nem razoável pedir-lhes que financiem tudo simplesmente porque possuem um alto nível de biodiversidade. Todos nós temos que nos esforçar, principalmente os Estados que têm mais a oferecer.

Adaptação: Clarice Dominguez

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