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Como a Suíça está lidando com a diminuição do poder de compra

A inflação afeta desproporcionalmente as famílias de menor renda. © Keystone / Gaetan Bally
Este conteúdo foi publicado em 27. setembro 2022

Embora a inflação na Suíça esteja relativamente moderada, o aumento dos preços da energia e de alguns alimentos básicos pode pesar muito nos orçamentos menores. A questão das medidas para melhorar o poder de compra, que o governo tem descartado até então, está agora na agenda do Parlamento.

Como em outros lugares, a inflação e o medo da erosão do poder de compra são questões muito debatidas na Suíça. Elas estão entre os principais temas abordados na mais recente sessão parlamentar, com debates extraordinários realizados na quarta-feira e na segunda-feira, respectivamente 21 e 26 de setembro. Representantes eleitos de diferentes partidos políticos estão tentando convencer o governo a adotar medidas para aliviar os orçamentos domésticos, como já vem acontecendo em vários países vizinhos.

Para compreender melhor os debates, fizemos um balanço da situação na Suíça e dos diferentes mecanismos propostos.

  • Por que a Suíça é menos afetada pela inflação do que outros países?

Os problemas de abastecimento ligados à pandemia de Covid-19 e a forte retomada da demanda global após a crise sanitária fizeram com que os preços da energia e das matérias-primas disparassem. A guerra na Ucrânia acentuou ainda mais o fenômeno. Assim, a tendência de aumento dos preços é global e também afeta a Suíça.

Apesar disso, até agora a inflação na Suíça tem permanecido contida em comparação com outros países. No país, o índice geral de preços ao consumidor subiu 3,5% ao ano, em comparação com quase 10% na União Europeia e mais de 8% nos Estados Unidos.

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Em particular, os preços da energia aumentaram 28% e os dos alimentos 2% na Suíça, em comparação com 38% e 10,6% respectivamente na zona do euro.

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A atual força da moeda suíça desempenha um papel de amortecedor. “O euro diminuiu quase 10 centavos em relação ao franco suíço desde o início do ano, o que significa que os produtos importados estão muito mais baratos”, explica Mathieu GrobétyLink externo, diretor do Instituto de Economia Aplicada da Universidade de Lausanne. Isso diz respeito a um quarto dos produtos consumidos na Suíça.

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O especialista acrescenta que, na Suíça, os preços da energia estão um pouco menos sujeitos às flutuações internacionais do que em outros lugares, graças a um mercado regulamentado no qual uma parte dos preços é fixada antecipadamente e que tem uma grande parcela de energia renovável produzida por hidrelétricas.

Mathieu Grobéty Fabrice Ducrest / UNIL

Segundo o economista, a localização geográfica da Suíça no coração da zona do euro e a ameaça do turismo comercial também desempenharam um papel importante. Os distribuidores suíços de alimentos não repassaram imediatamente o aumento dos custos globais ao consumidor para não encorajar ainda mais as compras no exterior. Grobéty ainda espera uma “recuperação até o final do ano, seguida por um abrandamento na inflação a partir do início de 2023”.

  • Como a inflação se manifesta na Suíça?

Os preços de muitos bens de consumo, especialmente energéticos, subiram no último ano. O preço do óleo combustível, utilizado por quase 40% dos lares suíços para aquecimento, quase dobrou e o preço do gás subiu quase 60%.

As tarifas de eletricidade são anunciadas uma vez por ano, no final de agosto. Para 2023, foi anunciado um aumento médio de 27%, com grandes disparidades entre locais – na Suíça, a rede é gerenciada localmente por cerca de 600 fornecedores diferentes. Alguns municípios experimentarão aumentos recorde, como Saint-Prex no cantão de Vaud, onde a conta aumentará 1600%.

Alimentos básicos, como óleo e massas, se tornaram mais de 10% mais caros. Estes aumentos estão começando a ter um impacto palpável nos orçamentos domésticos. De acordo com o Escritório Federal de EstatísticaLink externo (OFS), no primeiro trimestre de 2020, uma família gastava em média 535 francos em alimentos por mês, em comparação com 586 francos no segundo trimestre de 2022. Nesse período, a parcela média da renda gasta com alimentação aumentou de 5,5% para 6%.

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Outro importante item de despesa na Suíça, que não está incluído no índice de preços ao consumidor, são os prêmios do seguro saúde obrigatório. Os especialistas esperam um aumento entre 5% e 10% em 2023 – após uma queda média de 0,2% este ano e um aumento de 0,5% em 2021.

Até agora, os salários não têm seguido essa tendência ascendente. Em 2021, um leve declínio nos salários, combinado com a inflação, fez com que os trabalhadores perdessem 0,8% de seu poder de compra, de acordo com o OFSLink externo. Os dados de 2022 ainda não estão disponíveis.

  • Este aumento dos preços é sustentável para a população?

A renda média na Suíça é mais alta do que na maioria dos outros países. A proporção da renda gasta em alimentos e energia, os produtos cujos preços mais subiram, é, portanto, menor do que em outros lugares, explica Grobéty. “Na Suíça, esses gastos representam 20% da renda média, em comparação com 30% na zona do euro”, observa o economista.

Mas a inflação afeta desproporcionalmente as famílias de menor renda e aquelas com grande parte de seu orçamento dedicada à energia. “A inflação age como um imposto”, resume o pesquisador. “De um dia para o outro, alguns lares veem sua renda ser reduzida em mais de 3,5%, pois consomem uma porção maior dos produtos cujos preços mais subiram.” Por isso, ele acredita que as medidas para os lares mais afetados pela inflação são importantes do ponto de vista social.

  • Quais são as medidas existentes para preservar o poder de compra? Elas são eficazes?

Em resposta à alta dos preços, vários países adotaram diversas medidas extraordinárias. Descontos estatais sobre combustíveis, teto para os preços de aluguéis e tarifas de energia, aumentos nas pensões de aposentadoria, salários de funcionários públicos e certos benefícios sociais – por exemplo, na França –, e vales de energia ou subsídios para passes de transporte público, como na Alemanha.

“Todas as medidas não direcionadas tomadas pelos governos para manter o poder de compra, como descontos no combustível, podem ser contraproducentes”, analisa Grobéty. “Elas estimulam a demanda, mas os bancos centrais estão justamente tentando reduzi-la para conter as pressões inflacionárias.” Para o economista, mecanismos que atuam nos preços da energia, como os vales energéticos, também podem ter um efeito negativo, mas por outra razão: “o aumento dos preços é uma forma muito eficaz de provocar as mudanças de comportamento necessárias para atingir os objetivos climáticos”.

Grobéty acredita que a melhor estratégia seria focar na pequena parte da população que precisa de ajuda, por exemplo, através de deduções fiscais, subsídios ou mesmo vales – desde que possam ser gastos em algo que não seja energia.

  • E na Suíça?

A bola está agora no campo do Parlamento. Na sessão extraordinária de 21 e 26 de setembro, os parlamentares debatem várias propostas, principalmente da esquerda e do centro. Entre elas, estão sendo discutidos ajustes urgentes nas pensões para compensar a inflação e um aumento na contribuição federal para subsidiar seguros de saúde para as famílias de baixa renda. Um “subsídio energético” temporário, destinado aos lares mais vulneráveis, e um “cheque federal” para a classe média também são objetos de discussão.

O Partido Popular Suíço (UDC/SVP, direita conservadora), que se opõe a tais medidas por serem muito caras, defende abatimentos fiscais, como a dedutibilidade dos prêmios de seguro saúde, a abolição dos impostos sobre o óleo mineral para reduzir os preços dos combustíveis e a abolição da tributação do valor do aluguel para aposentados.

Até agora, o Conselho Federal tem se recusado a intervir e se opõe a todas as propostas. A maioria do governo considera que a inflação ainda é suportável, dado o crescimento contínuo e a taxa de desemprego historicamente baixa. Ele também acredita que algumas das medidas propostas são muito amplas e poderiam ser contraproducentes, além de onerosas para o orçamento federal. Resta saber se os parlamentares conseguirão mudar seu posicionamento.

Adaptação: Clarice Dominguez
(Edição: Alexander Thoele)

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