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As pandemias mudam, mas o medo que elas causam permanece

As restrições de viagem, observadas aqui em St. Moritz em janeiro de 2021, têm sido usadas desde a Idade Média para tentar conter uma epidemia. Keystone / Giancarlo Cattaneo

Antes do coronavírus, o progresso da medicina quase nos fez esquecer que o Ocidente passou séculos sob a ameaça de epidemias. A atual pandemia, contudo, veio para lembrar que a humanidade continua vulnerável. Ela também desperta medos ancestrais, diz um historiador da medicina.

Este conteúdo foi publicado em 25. novembro 2021 - 16:00

Nos últimos dois anos, a pandemia deixou sua marca na sociedade, e as diferentes medidas promovidas pelas autoridades, como o isolamento e a vacinação, dividem opiniões. No entanto, essa não é a primeira vez que a população se vê confrontada com graves epidemias. Mas até que ponto os eventos atuais podem ser lidos à luz dos passados? Alain Bosson, historiador da medicina, oferece algumas respostas.

swissinfo.ch: Para um historiador, qual é a principal referência de epidemia?

Alain Bosson: É a peste da Idade Média. A Europa Ocidental, que havia sido poupada pela peste desde o século VI, viveu um primeiro episódio apocalíptico de 1347 a 1351. Em algumas regiões, a peste matou entre um terço e metade da população. Depois, a epidemia voltou de forma intermitente até o século XVIII.

Os surtos de peste forçaram os governos a agir. Observou-se que certas medidas, tais como o isolamento dos doentes, a quarentena e as restrições de viagem, tendiam a reduzir o impacto da doença. Posteriormente, tornou-se comum agir da mesma maneira em resposta a outras epidemias.

Para os historiadores, então, não há nada de novo sob o sol. Estamos revivendo agora preocupações e comportamentos típicos do que foi vivido no passado.

A atual pandemia frequentemente é comparada com a gripe espanhola no final da Primeira Guerra Mundial. Em quais aspectos as duas situações são semelhantes, e em quais são diferentes?

Em ambos os casos, trata-se de uma pandemia, ou seja, uma epidemia que afeta rapidamente o mundo inteiro, o que não foi o caso com a peste. A escala do fenômeno também é comparável. Na Suíça, por exemplo, estima-se que entre um terço e metade da população tenha pegado a gripe espanhola entre 1918 e 1920, o que resultou numa enorme taxa de mortalidade, muito pior do que a do coronavírus.

Mas o paralelo termina aqui. A gripe espanhola foi infinitamente mais preocupante. Na época, não tínhamos a menor ideia do que estávamos lidando, porque ainda não sabíamos sobre a existência de vírus. No início, algumas pessoas até pensavam que era uma forma de peste. Atualmente, sabemos muito mais sobre o coronavírus, embora ainda existam algumas incertezas.

Mas, acima de tudo, a taxa de mortalidade era muito maior e afetava principalmente a faixa etária de 20 a 35 anos, e não os idosos, como parece ser o caso do coronavírus. Se você ler os jornais da época, verá tragédias inauditas nas quais o pai e a mãe morrem, enquanto as crianças e os avós são poupados. Também nesse aspecto o fenômeno era muito mais preocupante do que é hoje, porque estava dizimando a faixa etária mais ativa da população.

Apesar disso, tem-se a impressão de que as pessoas estão mais em pânico hoje do que há cem anos...

Vivemos hoje em sociedades modernas ou pós-modernas onde a saúde é muito importante. As famílias pagam muito caro por seus seguros saúde, e essas despesas estão de acordo com o que se espera do sistema de saúde.

No início do século XX, a expectativa de vida era entre 45 e 50 anos, enquanto hoje é mais de 80 anos. Os perigos da vida, como o parto e as doenças infantis, ceifavam um grande número de vidas. Depois disso, a mortalidade aumentava novamente por volta dos 50 anos de idade. Pode-se chamar isso de fatalismo, mas vivíamos mais próximos à ideia de morrer.

Alain Bosson é doutor em história moderna pela Universidade de Friburgo e ensina história no nível secundário (ensino médio). Ele é autor de vários livros, todos dedicados à história da medicina, principalmente no cantão de Friburgo. Seu último livro trata da farmácia em Friburgo desde a Idade Média até o fim do Antigo Regime. Alain Bosson

Isso não quer dizer que éramos totalmente indiferentes. A gripe espanhola era muito assustadora, porque as pessoas sofriam terrivelmente antes de morrer. A população estava muito preocupada, mas lidava com isso. Atualmente, as pessoas reagem muito mais intensamente, mas isso reflete a nossa sociedade, para a qual a morte se tornou quase um tabu.

A vacinação enfrenta uma resistência, até mesmo uma hostilidade, por parte da população. Sempre foi esse o caso ou é um fenômeno novo?

Desde o início, houve uma certa resistência. Na Europa, as primeiras vacinas visavam a varíola, uma doença terrível que matou dezenas de milhões de pessoas ao longo dos séculos. A vacina funcionava através da inoculação de uma forma atenuada da doença, a varíola bovina. Era uma solução milagrosa, mas os vírus ainda eram desconhecidos e o método era baseado em boas intuições, mas sem validação científica. Simplesmente foi observado que a inoculação estimulava o sistema imunológico. O procedimento não era sem risco e era preciso coragem para se vacinar no século XIX.

O trabalho de Louis Pasteur sobre a vacina contra a raiva permitiu que se conhecesse mais sobre o assunto e abriu o caminho para a imunologia moderna. No entanto, apesar dessa descoberta, as primeiras tentativas de desenvolver uma vacina contra a tuberculose, por Robert Koch na Alemanha, foram um fracasso e resultaram em mortes. Assim, história da vacinação tem sido marcada por riscos e incertezas que permanecem em nosso inconsciente coletivo.

Talvez seja por isso que é difícil impor a vacinação obrigatória.

A única vez que o governo suíço tentou impor a vacinação obrigatória foi em 1879, com uma Lei Federal sobre Epidemias. Mas houve um referendo e, em 1882, a lei foi rejeitada por quase 80% dos votos, principalmente por causa da obrigatoriedade da vacina.

Também houve tentativas de impor a obrigatoriedade em alguns cantões. Friburgo, por exemplo, a introduziu em 14 de maio de 1872. Mas houve tanta relutância – uma pequena proporção da população acabou sendo vacinada – que a medida foi rapidamente abandonada.

Pode-se supor que isso tenha, se me permitem, “vacinado” permanentemente as autoridades contra qualquer ideia de tornar obrigatória a vacinação, que continua sendo um procedimento médico para o qual o consentimento do paciente parece ser imprescindível.

Mas a vacinação também é uma história de sucesso.

Após a Segunda Guerra Mundial, a pólio e a varíola foram efetivamente erradicadas. São sucessos extraordinários que devem ser contextualizados num momento histórico em que a medicina está em seu auge. Testemunhamos também, por exemplo, o primeiro transplante de coração pelo professor Barnard em 1967. É uma época em que a medicina triunfa, e acreditava-se que ela iria curar quase tudo. A confiança e o apoio do público à medicina eram muito altos.

Mas essa confiança diminuiu nos anos 80, com a epidemia de AIDS que, de certa forma, nos lembrou dos limites da medicina. Foi também nessa época que testemunhamos um retorno às práticas terapêuticas apresentadas como mais naturais. Podemos mencionar, por exemplo, a abertura de casas de partos para evitar partos hospitalares. Essa época também foi acompanhada por uma crescente desconfiança, por parte dos defensores de uma medicina mais natural, em relação à vacinação.

Também é desde essa época que a palavra dos médicos e das autoridades sanitárias está sendo cada vez mais questionada?

De fato, até os anos 80, quando profissionais médicos se manifestavam, eles eram ouvidos. Nos anos 60, era impensável que uma opinião expressa por um especialista fosse questionada na imprensa. Em geral, a palavra das autoridades quase nunca era contestada.

Hoje em dia, sente-se que qualquer verdade científica é passível de ser reduzida a um debate de opinião. No caso da vacinação, somos reduzidos a perguntas como “você acredita na eficácia das vacinas ou não?” Certamente é positivo que não acreditemos cegamente em tudo e que sejamos mais críticos do que costumávamos ser. Mas o que é frustrante é que existem fatos nitidamente estabelecidos e comprovados na ciência, e aqueles que se convidam ao debate muitas vezes não têm os instrumentos para desafiá-los.

Adaptação: Clarice Dominguez

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