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Opinião
Vida Alpina

A proteção da biodiversidade começa na sociedade

Em meio a frágeis negociações globais sobre a proteção da biodiversidade, que foram interrompidas pela pandemia de Covid-19, um pesquisador especialista no impacto humano na natureza argumenta que podemos encontrar esperança nas iniciativas locais.

Este conteúdo foi publicado em 17. julho 2022 - 15:00
United Nations University Institute for the Advanced Study of Sustainability

Em março deste ano, em Genebra, 195 países discutiram o próximo acordo global de biodiversidade. Devido à pandemia de Covid-19, as negociações estão no limbo há mais de dois anos. O último acordo global sobre biodiversidade, conhecido como as Metas de Aichi para a BiodiversidadeLink externo, expirou no final de 2020, fazendo com que seja necessário um novo acordo sobre a biodiversidade para substituí-lo.

Os participantes do encontro em Genebra, contudo, não conseguiram elaborar nenhuma meta concreta, nem concordar sobre os objetivos gerais do próximo acordo. Uma outra reunião foi realizada em junho em NairóbiLink externo, no Quênia, antes da Cúpula das Nações Unidas sobre a Biodiversidade, que acontecerá em dezembro no Canadá, na cidade de Montreal. Mas, de acordo com muitas ONGs presentes nas negociações de Genebra, o processo tem sido caracterizado por uma falta de urgência.

As ameaças à natureza persistem

Em muitos lugares, a pandemia interrompeu os esforços para a gestão da biodiversidade e as ameaças globais à natureza permanecem majoritariamente inalteradas. Embora os primeiros dias de pandemia tenham trazido notícias sobre o retorno de golfinhos e cisnes às vias fluviais e a circulação de pessoas tenha sido restringida devido às estratégias de enfrentamento à pandemia, os padrões de consumo e uso da terra quase não mudaram – e os seus impactos sobre a natureza são muito claros. À medida que semanas de lockdown se transformaram em meses, ficou claro que a própria resposta da humanidade à pandemia estava prejudicando a natureza.

Como destacado pela Conservation InternationalLink externo, “há uma percepção equivocada de que a natureza está 'respirando' durante a pandemia de Covid-19. Ao invés disso, muitas áreas rurais nos trópicos estão enfrentando um aumento da apropriação de terras, do desmatamento, da mineração ilegal e da caça ilegal de animais silvestres”.

A situação nos países desenvolvidos é ainda mais insidiosa. A quantidade de resíduos plásticos resultantes das medidas sanitárias aumentou absurdamente e a poluição plástica cresceu em muitos países da Europa e das Américas, que antes estavam tentando eliminar gradualmente o uso do material. No mundo desenvolvido, as pessoas que fugiram das cidades por medo ou simplesmente para desfrutar do trabalho remoto estão impulsionando a demanda por recursos e por casas com uso intensivo de energia em áreas suburbanas ou rurais.

Em geral, houve alguns desdobramentos positivos para a conservação da biodiversidade como resultado da pandemia, incluindo uma maior atenção à regulamentação do comércio de animais selvagens, mas pesquisadores ao redor do mundo notaram muito mais impactos negativos.

Motivos para ter esperança

A meta de proteger 30% dos ecossistemas mundiais até 2030 tem sido discutida antes da próxima cúpula sobre biodiversidade em Montreal. Para que ela possa ser alcançada, é necessário não apenas o retorno aos níveis almejados antes da pandemia, mas a sua superação. Embora isso possa parecer desafiador após dois anos de pouco progresso, devemos nos lembrar de que o verdadeiro trabalho de implementação ocorre nas comunidades locais. Já está em andamento uma grande quantidade de práticas e iniciativas de sucesso voltadas para a biodiversidade em diversos locais ao redor do mundo.

Um dos exemplos é o projeto de Centros Regionais de Especialização (RCE). Existem 175 RCEs ao redor do mundo: cada um deles reúne as partes locais interessadas para promover uma educação para o desenvolvimento sustentável (EDS). Esses RCEs unem fornecedores de educação formal (como escolas e universidades) e fornecedores de educação não-formal (como governos municipais, parques nacionais, museus e zoológicos) com o intuito de usar a educação e o treinamento para promover uma agenda integrada de desenvolvimento sustentável numa determinada região.

Lançada em 2003, a iniciativa dos RCEs é facilitada pelo Instituto Universitário das Nações Unidas para o Estudo Avançado de Sustentabilidade (UNU-IAS), sediado em Tóquio, e financiada pelo Ministério do Meio Ambiente do Japão.

A proteção e restauração da biosfera tem sido o foco dos RCEs desde sua concepção. A recente publicação Engajando Comunidades para a Conservação da Biodiversidade: Educação para Projetos de Desenvolvimento Sustentável da Rede Global RCELink externo destaca casos de sucesso como a restauração de ecossistemas de manguezais em Bangladesh e nas Filipinas e a redução do contato entre seres humanos e vida selvagem em comunidades brasileiras e quenianas.

A publicação fornece muitos outros exemplos concretos de como comunidades do mundo todo utilizaram a educação como um mecanismo para tomar medidas concretas voltadas para a proteção da biodiversidade na sua região. Adotando abordagens focadas na conservação de ecossistemas ou de espécies, os projetos dos RCEs apresentam passos que todos nós podemos dar em nossas próprias comunidades para transformar a educação em ação a fim de proteger a biosfera.  

Obviamente, precisaremos de objetivos e metas globais no futuro para proteger a natureza no mundo todo. Mas através desses exemplos, nos quais as comunidades têm tomado a iniciativa de usar a educação e o treinamento para conservar a biodiversidade, ficamos muito mais próximos de transformar objetivos globais distantes em realidade.

Adaptação:  Clarice Dominguez
(Edição: Fernando Hirschy)


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