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"Vale Crypto" da Suíça na linha de frente das finanças globais

Quase metade das empresas de criptomoedas na Suíça - 433 - estão sediadas em Zug, na região central do país. Keystone / Alessandro Della Bella

A pequena cidade de Zug já foi um lugar inocente, conhecido por suas freiras cozinheiras, casas enxaimel e uma torta regada a kirsch (destilado da cereja) que era a favorita de Audrey Hepburn.

Este conteúdo foi publicado em 27. março 2022 - 10:00
Sam Jones, Financial Times

Depois, tornou-se um paraíso fiscal e um ímã para sedes corporativas. Atualmente, é o lar da Glencore e de outras gigantes ainda menos inocentes. E agora, em meio aos modestos parques empresariais e aos blocos de escritórios que gradualmente se espalham a partir de seu pequeno centro histórico, a cidade se tornou o reino das criptomoedas na Europa.

Ou, como os espertos marketeiros de Zug gostam de chamá-la: o ‘Vale Cripto’. Em um relatório recente, um investidor local, CV VC, escreveu que agora existem 960 startups de criptomoeda na Suíça, empregando mais de 5.000 pessoas. Quase metade dessas startups – 433 – estão sediadas em Zug.

Hoje em dia, nada disso passa despercebido: a partir de peças publicitárias, os visitantes do país podem concluir que, no que diz respeito às contribuições suíças para o mundo, a tecnologia de registro distribuído (DLT, em inglês) fica atrás apenas dos chocolates e dos relógios de luxo. Nos caríssimos bares de Zurique, o ‘cara da fintech’ está quase se tornando uma figura mais comum do que o ‘bancário da Paradeplatz’.

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Mas, como em todo o mundo do blockchain, há um vento frio soprando pelo vale cripto. O UBS alertou esta semana que um ‘inverno cripto’ se aproxima à medida que a Reserva Federal aumenta suas taxas. Os analistas do banco suíço acreditam que o recente colapso dos preços do Bitcoin é o primeiro sinal de que a festa acabou.

Planos a longo prazo

E assim a tranquila cidade de Zug se encontra na linha de frente das finanças globais. A Suíça, pelo menos, parece pensar que as criptomoedas chegaram para ficar. Enquanto outros governos procuram controlar as empresas de cripto, nos últimos meses, a Suíça tem se interessado em promovê-las. Em fevereiro de 2021, Berna introduziu uma nova “lei de blockchain” para codificar como os ativos digitais devem ser tratados nos tribunais no que diz respeito aos seus aspectos particulares, como prova de propriedade e custódia.

O regulador financeiro, FINMA, por sua vez, tem sido extremamente proativo ao tentar se envolver e entender o novo mundo cripto. Ele chegou até mesmo a licenciar dois bancos de criptomoeda no país: Seba e Sygnum. O posicionamento da FINMA indica que a Suíça pretende ter a vantagem de ser o primeiro país a se abrir às fintechs cripto.

As grandes figuras do setor – como era de se esperar – também veem um futuro próspero para as criptos na Suíça. Numa visita recente aos escritórios do banco Sygnum, o CEO Mathias Imbach me disse que a volatilidade e a exuberância que muitos investidores moderados têm associado às criptomoedas é apenas aparente e que, na realidade, há propostas sérias e oportunidades de investimento.

Obviamente, existem alguns valores em comum que sustentam o interesse suíço pelas criptomoedas e o entusiasmo do setor pela Suíça: uma convicção no poder da tecnologia, por exemplo, e, mais importante ainda, uma inclinação libertária que favorece a liberdade política e institucional.

O elefante na sala

Mas há um elefante na sala, talvez ainda maior do que a queda vertiginosa das criptomoedas nos últimos meses. E, ao que parece, a Suíça ainda não tem uma resposta a longo prazo para o problema, independentemente de onde estejam os preços das criptomoedas daqui a um ano ou de como a indústria tenha se institucionalizado.

As empresas e tecnologias de cripto estão cada vez mais no centro de fluxos financeiros ilícitos globais e de empreendimentos criminosos. Uma antiga fonte me contou recentemente que as agências de inteligência ocidentais estão muito preocupadas com a maneira como este tipo de tecnologia está possibilitando atividades políticas e financeiras ilícitas.

Há algumas semanas, numa manhã gelada, encontrei-me com um gestor de ativos cripto em Zug para tomarmos um café em seu escritório. Na ocasião, recebi uma avaliação extremamente franca do problema na Suíça: com certeza, há uma série de grupos inescrupulosos no vale cripto, disse o gestor. Há também – e isso talvez seja pior – um número ainda maior de empreendedores muito ingênuos, ansiosos por dinheiro e clientes, que se consideram desvinculados das regras que regem as finanças tradicionais.

Ele acrescentou que a gestão de ativos cripto se tornou o lar de muitos consultores financeiros avessos ao cumprimento das normas que foram expulsos dos bancos privados suíços, propensos a escândalos nos últimos anos. E, ao que parece, muitos dos clientes do vale cripto são pessoas politicamente expostas que foram “retiradas” das carteiras de bancos devido a temores de uma má reputação relacionada a crimes de colarinho branco.

Em Zug, portanto, parece que – independentemente do clima predominante no mercado, inverno ou verão – o futuro brilhante das criptos corre o risco de ser uma repetição do obscuro passado financeiro da Suíça.

Copyright The Financial Times Limited 2022

Adaptação: Clarice Dominguez
(Edição: Fernando Hirschy)

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