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"Devemos reduzir nosso consumo de carne"

A iniciativa é uma oportunidade para os criadores suíços porque o mercado não será mais inundado com produtos concorrentes baratos do exterior, diz Meret Schneider. © Keystone / Gaetan Bally

Em 25 de setembro, os cidadãos suíços vão decidir sobre o futuro da criação intensiva de animais para consumo humano. A iniciativa visa restringir o modelo de criação industrial e exige regulamentações mais rígidas na importação de produtos de origem animal.

Este conteúdo foi publicado em 19. setembro 2022 - 09:45

“Deveríamos ter menos animais e criá-los de maneira mais digna”, diz a parlamentar do Partido Verde de Zurique, Meret Schneider. Ela é uma das principais defensoras do veganismo e também é co-gerente da Sentience Politics, a organização de direitos dos animais que lançou a iniciativa. Em entrevista à swissinfo.ch, ela explica por que apoia a causa.

SWI swissinfo.ch: A Suíça tem algumas das leis de proteção animal mais rígidas do mundo e seu rebanho de animais é comparativamente pequeno. Precisamos de mais regulamentações?

Meret Schneider: Claro, a Suíça está bem posicionada quando se trata de legislação de proteção animal, e temos menos animais do que outros países. No entanto, os agricultores ainda podem manter 27.000 frangos de corte em um único galpão com 14 frangos espremidos por metro quadrado. Isso certamente é uma superlotação.

Não vale a pena se perguntar se a situação é pior em outros lugares ou o que outros países estão fazendo. Devemos antes perguntar-nos se a forma como gerimos os nossos animais garante o seu bem-estar. Protegemos sua dignidade? Certamente há muito espaço para melhorias.

SWI: Isso significa que os animais não estão suficientemente protegidos na Suíça?

MS: Vou deixar para os leitores decidirem. Na Suíça, um frango de corte convencional vive cerca de 30 dias, durante os quais é engordado a tal ponto que é incapaz de se manter em pé. As galinhas são então abatidas por peça. As galinhas poedeiras são dispensadas depois de dez meses porque perdem sua produtividade, embora possam viver até os 14 anos. Elas geralmente sofrem de fraturas no osso esterno, devido à suas características selecionadas geneticamente para aumentar a produção de ovos. Os porcos vivem em um metro quadrado de concreto sem cama, o que lhes causa dores nas articulações. Na minha opinião, estamos longe de proteger o bem-estar dos animais.

SWI: Os opositores argumentam que, se aceita, a iniciativa pode levar a uma queda maciça nos produtos animais suíços e a um aumento de preços de 20% a 40%. Isso não seria um problema para você?

MS: Este número é muito alto porque foi calculado com base nos preços dos produtos orgânicos. Não faz sentido. A iniciativa não obrigará os agricultores a cumprir os padrões orgânicos previstos, mas sim utilizar esses parâmetros como diretrizes de bem-estar animal. Haverá menos produtos de origem animal no marcador, o que está de acordo com os hábitos alimentares dos consumidores. O consumo de carne está continuamente em declínio há algum tempo.

Devemos reduzir severamente o consumo de produtos animais de qualquer maneira devido às mudanças climáticas e ao esgotamento dos recursos. É claro que os preços vão aumentar, mas não tanto quanto afirmam os adversários da iniciativa. No final do dia, um aumento de preço seria apropriado. Os produtos de origem animal são artigos de luxo que exigem muitos recursos. E enquanto os suíços jogarem fora um terço da comida que compram, é difícil entender como algo seria caro demais.

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SWI: Os produtores certamente enfrentarão custos mais altos se, digamos, forem obrigados a converter seus criadouros. A iniciativa leva isso em conta?

MS: Absolutamente. De acordo com nossa proposta, o governo apoiará os produtores. Exigimos subsídios, o que é algo que sempre enfatizamos. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que o período de transição é de 25 anos, ou seja, uma geração inteira. Certamente temos tempo suficiente.

SWI: Os opositores da iniciativa afirmam que os agricultores teriam que adotar os requisitos para a certificação orgânica. Isso restringiria a liberdade de escolha dos consumidores. Existe alguma verdade nisso?

MS: Como mencionei anteriormente, os agricultores não serão obrigados a adotar padrões orgânicos e a liberdade de escolha dos consumidores já é limitada. Por exemplo, manter galinhas em gaiolas em bateria é proibido na Suíça. Esta foi uma decisão política que foi apoiada pelo povo. Não queremos manter nossas galinhas de uma forma que seja contra o bem-estar animal. A dignidade dos animais está consagrada na Constituição suíça. O mesmo se aplica a outros produtos animais.

SWI: Os recursos suíços não são suficientes para alimentar toda a população. A iniciativa não reduziria ainda mais nosso índice de autossuficiência?

MS: Estamos longe de ser autossuficientes. As fazendas suíças contam com galinhas poedeiras híbridas para produção de ovos e frangos de corte para carne. Esses animais híbridos não foram criados na Suíça e suas matrizes foram importadas. Quando falamos de autossuficiência, devemos ter em mente que importamos matrizes, além de mais de um milhão de toneladas de forragem todos os anos.

Se diminuirmos o número de animais e contarmos mais com animais de pasto - como bovinos, bovinos, ovinos e caprinos - adaptados às nossas pastagens, seremos mais autossuficientes. A Suíça tem a topografia certa para animais de pasto.

SWI: Não existe o risco de que a iniciativa impulsione as importações de países onde o bem-estar animal é menos respeitado do que na Suíça?

MS: Essa iniciativa impediria exatamente isso. Os produtos importados teriam que atender aos padrões suíços. Seria uma grande oportunidade para os agricultores suíços, pois o mercado não seria inundado com produtos baratos, como aves do Brasil ou carne bovina da Argentina. Os animais nesses países geralmente são mantidos de acordo com padrões que seriam proibidos por nossa iniciativa.

SWI: Os críticos afirmam que, se aceita, a iniciativa violaria as obrigações da Suíça para com a Organização Mundial do Comércio (OMC). O que você acha disso?

MS: Isso não é um problema. Já existem regulamentos da OMC segundo os quais as restrições à importação são justificadas e possíveis se os produtos contrariarem a moral pública da respectiva sociedade. Vimos isso com a proibição de importação de produtos de foca ou ovos de galinhas engaioladas. Aceitar a iniciativa enviaria um sinal muito forte que diz: “Não queremos isso como sociedade”. E isso seria compatível com a OMC.

Ponto de vista oposto: o parlamentar do Partido Popular Suíço, Marcel Dettling, explica em entrevista por que é contra a iniciativa de proibição da criação intensiva de animais:

Adaptação: Clarissa Levy
(Edição: Fernando Hirschy)

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